Respiro

O cheiro dos seus cabelos de bebê vai se desmanchando como os dedos se desmanchavam neles nos cafunés do passado. O sotaque metalizado, o áudio cortado e a figura num vídeo ora desfocado são o que sobrou de você e também as novas metonímias da vida. E de repente me vejo naquele limbo da liberdade e da aposta que escorre pelos dedos deixando manchas. Sujeira? Semente? Inspirar e expirar ar fresco e livre dos seus cheiros nauseia ambiguamente. O ar fresco enche os pulmões com tanta força que desorienta, ao mesmo tempo em que, ao ser expirado, tira a tensão. Talvez a renovação seja o alívio desse desmanchar meio sem rumo. A tentação dos caminhos antigos com a ilusão dos resultados diferentes também vai se desmanchando aos poucos. E vai sobrando um vazio também angustiantemente ambíguo. Mas em que, finalmente, a esperança e a leveza vão tendo espaço pra dançar, mesmo que timidamente. Desentulham-se as expectativas e abre-se espaço pra coisas que nem sei o nome ainda. Porque talvez, como diz a Clarice, aquilo que desejamos ainda não tenha nome. Mas cheiram àquele café com vapor de leite que desce pela garganta como um abraço. Ou àquele banho quentinho com sabonete de oliva que aquece a alma. Porque, como diz o Guimarães, felicidade se encontra nas horinhas de descuido. Não sei nem ao certo se estou caminhando. Mas vou tateando no escuro. Sem senso de visão, mas aprendendo a confiar em outros sentidos e outras perspectivas, que nem enxergo quais são. Mas que me abraçam como aquele cheiro de café com vapor de leite quente.

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Consenso & consentimento

Consenso e consentimento são palavras-chave pra mim em termos de relacionamento. “Nossa, só você mesmo pra pensar/agir assim!” é uma frase que ouço recorrentemente, quase que em tom de acusação. Bom, existe um mundo em que pessoas terminam relacionamentos e gritam, se sentem magoadas, não querem mais se ver e tudo mais. E existe outro mundo, em que as pessoas conversam, se colocam no colo (no seu próprio e numas das outras) e chegam consensualmente à decisão de não permanecerem juntas como um casal (o que pode implicar não morar mais na mesma casa ou nem mesmo mais no mesmo país). Isso corresponde ao mundo real? Em poucas ocasiões. Isso pode corresponder ao mundo real? Pode, uai. Mesmo não sendo muito comum. Mesmo não sendo aquilo que se espera de um casal que se separa. Reparem que não estou cagando regra pra ninguém: cada umx lida com a realidade como pode, principalmente em situações que dependem de duas pessoas para se configurarem. E eu só posso dizer que sou uma pessoa de tanta, mas tanta sorte, que foi possível ter um companheiro por quase 5 anos e dizer “adeus” da maneira mais tranquila possível. Sim, eu choro todos os dias há mais de um mês. Não, a decisão que ambos consideramos como a mais acertada não é, nem de longe, fácil nem isenta de luto ou dor. Mas, se minha opinião vale alguma coisa, é bem mais fácil quando você não automatiza essa resposta de odiar o outro. E também quando vocês reconhecem que já deram a volta várias vezes, que tentaram pra caralho, mas não querem esperar chegar até o fundo do poço.  E é bonito de ver o outro planejando uma nova vida, com perspectivas, com alegria. E ver novas perspectivas pra mim mesma, sem aquele peso, aquela pressão toda que um casamento tradicional gera na grande maioria das vezes. É reconfortante perceber que as pessoas voltaram a notar a minha risada (uma das minhas marcas registradas, há um tempo esquecida); ter resgatado o prazer de ler e escrever; ter retomado várias amizades, real e virtualmente, apesar de toda a dor no peito.  Então, se é possível escolher amar o outro de uma nova maneira, mais compassiva e livre, inclusive, eu vou escolher o amor ao ódio. Com bastante tristeza e com alívio, porque é tudo junto e misturado. Mas, sobretudo, com um sentimento de ENORME GRATIDÃO ao meu grande companheiro até o momento e a todas as experiências que compartilhamos. Que ele (e todo mundo) saiba que as portas estão sempre abertas para recebê-lo. Que sou eternamente grata a um relacionamento que começou e terminou saudável, com vários percalços e desafios no meio. Mas sempre no compasso do consenso. E que venha a nova fase, as novas experiências e a nova vida que se anuncia.

Ainda vai ter post-agradecimento. Mas não posso deixar de registrar o meu MUITO OBRIGADA à Quel e à Marina, que vêm ouvindo quase que diariamente, com muita paciência, cada etapa que venho vivenciando. Tem mais gente nesse compasso do amor aí, mas depois tem post pra agradecer detalhadamente a cada umx. Obrigada gente, vocês são pessoas maravilhosas!

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Dor

[Pra ler ouvindo:]

As gotas grossas caem vertiginosamente, turvando a janela e as vistas. “Amor é planta”, diz o ditado. E como faz com o desencontro? “Assim vai encharcar a raiz!” “Mas, se não regar, vai morrer esturricada”. É agua demais, é agua de menos. E, sem jamais saber a medida exata, a gente se encharca e se resigna na desilusão muda, que sorri seus dentes de chumbo. No meio do caminho tinha uma pedra, mas também tinha uma expectativa, um desejo, um aconchego e até uma vontade de mais-querer. Ah, o querer! Esse cachorro sem dono, esse todo sem parte. E dói e atropela e esmaga a tal da resignação. “Aceita que dói menos”. Pois é precisamente aceitar que faz doer, oras. Enquanto a gente nega, empurra e até mesmo grita, ainda estamos em choque. É a aceitação que deixa a guarda baixa e, então, o trauma se revela em todas as suas nuances. Da garganta apertada às pernas bambas. Cabeça que explode, lágrima que escorre, dor que se espalha, erva-daninha. Se houvesse algum modo de evitar a dor, especialmente a que eu causo, te juro, eu faria. Mas a única saída é causar dor. E senti-la também, até o talo, até não ser mais suportável, soco que nocauteia o peito que queima em agonia. Dói ver a aposta escorrendo pelo ralo, a esperança se esvaindo do rosto, a energia se esvaecendo do corpo. E dói tanto, que dá vontade de correr e remendar tudo. Mas tapar a ferida latejante com band-aid só apodrece e necrosa. Então a gente deixa a ferida latir de dor. E tenta se por no colo. Até que passe…

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Ontem

Dormi embalada pelo cheiro da sua pele na minha. Ontem é possível. Nossa dança é tango e meu corpo, bordel. Sua voz rouca, explosão. Vontade de te acolher na palma da mão e te acarinhar a barba, te ouvir até você se cansar de falar e me enroscar entre as suas pernas, ronronando toda feito gata no cio. Duas garrafas de vinho. Giro a garrafa e pergunto: “verdade ou consequência?”. E no meio de tantas verdades confessas, convexas, conversas, algumas consequências safadas e descontraídas, molhadas, vividas de gotas de chuva, de vinho e de corpo. Ontem é avesso, é reverso, é verso, é poesia. E é prosa. Ontem, mais do que causa, é efeito. E afeto. Vida que segue e que brota, mesmo que seja só ontem. Porque ontem é eternidade retumbante, peça de Piazzolla que termina em seu ápice. Pequena morte. Marte. A consequência da verdade. Ou a verdade da consequência. No fundo mesmo, ontem é vida que se debulha e se apresenta. É tango e é baião de dois, mesmo que a única bailarina seja eu. Mismo que no quieras bailar conmigo. Eu bailo no embalo do olho que encara. No compasso do afago e do abraço, da conversa e do rascunho, do encaixe. E da promessa.

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Bolhas

Coloco a água pra esquentar numa vasilha de ferro, ligo o fogo e espero a água começar a se agitar em bolhas desgovernadas que se desencontram e explodem, frenéticas e cada vez mais quentes, sinalizando que aquele recipiente pode se tornar pequeno, caso a água ferva mais. O limite do recipiente e o desgoverno explosivo das bolhas pode, então, resultar no transbordamento da água fervente que, teimosa, se recusa a ficar limitada naquele espaço. Os pensamentos vêm e vão desgovernados, bolhas quentes e explosivas, totalmente fora do controle. E eu fico aqui, contemplando. Às vezes, me deixo levar demais pelo calor e pensamentos viram impulsos que eu posteriormente tento controlar ou explicar. No mais das vezes, tenho me divertido bastante com o fluxo e com a observação serena de toda essa intensidade-bolha que supita, transborda. Desgovernada pelo desejo, me vejo numa zona instável, que torna inviável qualquer tentativa forçada de ordenação. Então abraço, feliz e resignada, o caos criativo em que me encontro imersa. E deixo a vida transbordar.

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Um amigo de infância me lembrou hoje de uma história: na pré-escola, a professora perguntava: “Gente, o que a vaquinha traz pra nós?” Aí alguém da turma respondia: “Leite”. “O que a ovelhinha traz pra nós?” “Lã”. Quando ela perguntou: “E o peixe, gente, o que ele traz pra nós?”, eu, sem hesitar, respondi mais que depressa: “Bolha”. Meu amigo disse que, mesmo naquela época, conseguiu pensar algo do tipo: “Pô, que massa essa resposta”. A bolha é um sopro de poesia evanescente na minha memória (e vívida na memória do outro), sintomática de uma mente que, talvez de maneira antes mais espontânea, se recusa a pensar dentro da caixa. Por que a vida tem que ser pragmatismo se ela pode ser bolha? Lúdica, feita de sabão ou de sonho, e assoprada com alegria através de um canudo de mamona feito no quintal. Sopro de lucidez nas nossas respostas automáticas e na felicidade instantânea prometida em pílulas milagrosas. Talvez sejam essas pequenas brechas, rachaduras na parede perfeita do tempo e dos dias, possibilidades de pequenos de milagres de leveza na solidez massacrante da rotina.

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O “viver na bolha” tem me feito pensar um bocado ultimamente. Decidi, há quase 15 anos atrás, que aos 30 seria doutora e passaria num concurso para trabalhar na Universidade. Aos 27, apesar de nunca ter tido fetiche de casar, resolvi abraçar a oportunidade que se desenhou diante de mim e escolhi a dedo o cara perfeito: culto, cavalheiro, que me espera em casa com uma sopinha quente quando chego exausta do trabalho. E então, ao fim dos meus 30, concursada, casada, analisada, bato de frente com a minha realidade-bolha, morninha e normal. E bate de volta em mim, inevitavelmente, um vazio de sentido. Bolha-limite, confortável e opressora ao mesmo tempo. Até que ponto as nossas escolhas são realmente nossas? Vale mais viver no conforto ou se livrar da opressão? Será uma mera e feliz coincidência que os meus sonhos tenham coincidido exatamente com as expectativas de classe média? Duvido. Duvido de qualquer resposta definitiva que possam ter essas questões. Talvez porque as contradições e descontinuidades sejam precisamente as respostas precárias que conseguimos encontrar.

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Bolha pode ser condicionamento, poesia pura ou intensidade transbordante. Quais são as bolhas que movimentam nossas escolhas neste momento? Ou seriam todas elas ao mesmo tempo? Quem quiser arriscar uma resposta, fique à vontade! 🙂

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London, London

Bom, já vai fazer algum tempo que fui pra Londres, mas tô bem afim de postar sobre a cidade desde que cheguei. Londres é uma cidade realmente incrível, principalmente pra quem ama museus como eu: a entrada nos principais museus é de graça!! Apesar de a Libra ser uma moeda bastante cara, consegui fazer uma viagem barata, principalmente porque economizei bastante na hospedagem. Fiquei no Hostel Astor Quest London muitíssimo bem localizado, ao lado do Hyde Park, mas em quarto coletivo (algo que eu não curto muito poque tenho dificuldade pra dormir). A ducha também era coletiva (outra coisa que não curto muito, mas dá pra sobreviver). Achei a limpeza bem ruim, algo que nunca tinha me acontecido em Hostels antes. Mas ainda acho que valeu a pena, por conta da excelente localização e do preço: paguei incríveis 120 libras por seis diárias e conheci um pessoal bacana também, da França e da Austrália.

Por sugestão da minha colega de quarto australiana, fiz algo que nunca tinha feito antes, mas passarei a fazer sempre: tours guiados à pé. Achei incrível pagar 10, 12 libras em tours guiados  (teve um de graça também) e conhecer lugares aos quais não iria normalmente. East London foi uma grata surpresa: repleta de sebos de vinis e de livros, de grafite e arte de rua e de restaurantes da Índia e Bangladesh, a região merece ser explorada, mesmo não estando entre os “top sights” de turistas.  O tour de pubs em Camden Town foi divertidíssimo também: apesar de ser meio balela o esquema de descontos em bebidas, foi legal ir a desde um pub normal, a um pub cubano, passando por um pub de blues. Já o free tour contempla os “top sights” em Westminster. Foi tão legal que dispensei pegar aqueles ônibus de turismo.

Os parques da cidade são imperdíveis, com destaque para o Hyde Park, o Green Park e o Regent’s Park. Vale muito a pena andar tranquilamente por eles e observar o espetáculo da jardinagem. Os museus, então, nem se fala: na minha vibe de tours, fiz uns cinco no British Museum. De fato, é um museu pra se passar um dia inteiro. Mas, sem os tours, acho que ficaria muito perdida em meio a tantas salas. Os tours do Islam, da Índia e da China ficaram marcados. A National Gallery é também imperdível: fiz um tour guiado e me arrisquei no áudio tour, mas também só contemplei as obras. Vale a pena demais dar uma volta por Chinatown e pelos arredores do museu: comecei por Picadilly Circus, andei até a National Gallery, dei uma volta em Chinatown e terminei comprando um pulôver em Oxford Circus, de onde retornei de ônibus.

Outra coisa imperdível da cidade é a culinária DE FATO multiétnica e multicultural: comi comida indiana de verdade, comida chinesa de verdade e hamburguer de verdade. O meu guia da Lonely Planet ajudou bastante no quesito “comida com preço honesto” (embora muita coisa eu tenha descoberto na sorte mesmo) e com o mapinha destacável que vem  nele. Uma maneira que eu encontro pra economizar em comida é a seguinte: café da manhã sempre no Hostel (complemento com frutas e iogurtes comprados no supermercado), uma refeição decente por dia (sempre de $ a $$ nas indicações) e o jantar comprado no supermercado: salada ou alguma coisa prática pra aquecer.

Bom, voltando aos museus. Acho que o museu que mais me impressionou foi o Imperial War Museum, não só por eu ser uma grande fã de Segunda Guerra, mas pela acessibilidade e modernidade das instalações. A sessão do holocausto, com depoimentos narrados dos sobreviventes, assim como a timeline do papel das mulheres na guerra, agregada à timeline dos grandes acontecimentos foram uma experiência incrível. Outra recomendação, desta vez para os fãs de Shakespeare: assistir a uma peça no Global Theatre. Paguei míseras 5 libras e vi (de pé) uma adaptação de The Tempest. Os ingressos para a peça com o texto original estavam esgotados, então, recomendo que você reserve. Neste mesmo dia, fiz um passeio turístico pelo Tâmisa, mas recomendo mais o ônibus aquático: é mais barato e tem mais pontos de parada. Você pode iniciar o tour pelo Big Ben, atravessar a ponte London Eye (achi que valeu a pena pagar as 20 libras) e, de lá, pegar o barco e ir descendo onde te interessar: vale a pena dar uma andadinha até Bourough Market, próximo à London Bridge. Aliás, os mercados são outra categoria de “imperdíveis”. Eu não visitei a London Tower, mas vale a pena ver de fora.

Andar de ônibus também é uma opção barata (mais barata do que o metrô) e que te permite ver muita coisa da cidade, especialmente se você escolher viajar no segundo andar. Vale a pena pra distâncias curtas. Pra distâncias longas, o metrô serve. Comprei um Oyster Card recarregável, que me serviu muito bem e rendeu muitas viagens. Bom, pra finalizar, sempre vale incentivar todo mundo a sair um pouco do script e descobrir lugares sem a ajuda de guias e planejamentos excessivos. Num dia de caminhada pelo Hyde Park, decidi sair um portão antes do mais próximo do Hostel. Começou a chover (é claro) e eu fui me abrigar num pub, o The Swann. Tinha uma música ao vivo simplesmente sensacional: o cara começou tocando Eric Clapton/Robert Johnson, passou por John Meyer, Bob Dylan e muitos outros. Comi um excelente Fish & Chips e ganhei duas cervejas, de duas mesas diferentes, porque o pessoal se impressionou com a minha animação e com o fato de eu saber todas as músicas…

É isso, eu acho… Vale a pena ir a Londres, visitar inúmeros museus e parques gratuitos. E dá pra gastar pouco! Em brave, sai o post sobre “como viajar pra Europa com uma mísera malinha de mão” 🙂

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Das agruras de se escolher uma profissão desvalorizada socialmente (e dos privilégios invisíveis)

            Queridxs familiares e amigxs,

Obrigada por compartilharem comigo um momento de felicidade como este! Mas preciso pontuar uma coisa: a cada vez que vocês me dizem: “Parabéns!! Daqui a pouco você sobe mais ainda!” ou “Daqui a pouco você vem pra mais perto!”, indiretamente, vocês estão me dizendo que acham que eu estou no lugar errado; que eu deveria estar num lugar melhor, tanto do ponto de vista geográfico, quanto do profissional. Eu sei que a maioria de vocês diz isso porque, mesmo não sabendo o quanto eu ganho, imaginam (e imaginam certo) que não deve ser um salário de seis dígitos de um juíz. Nem mesmo um salário de cinco dígitos de um médico recém-formado. E que eu poderia ser juíza (e ter passado em Direito com a minha pontuação do vestibular). E que eu deveria ganhar mais e proporcionalmente à minha inteligência (seja lá o que isso for). Entendo que é uma atitude de carinho. Mas deixa eu contextualizar uma coisa pra vocês.

Fazer Letras (e não Direito) foi uma epifania do fim do Ensino Médio que deu certo. Muito certo. Fazer mestrado e doutorado enquanto uma parte pequena da minha turma já ganhava mais do que o suficiente para pagar as contas foi uma escolha de longo prazo. Que deu certo. Passar num concurso pra Adjunta no Nordeste logo depois de terminar a tese também foi um sonho que deu certo. O meu salário não chega a cinco dígitos. Mas é muito, muito maior do que o salário das minhas alunas que fazem especialização à noite ou à distância, após uma jornada de trabalho em, pelo menos, duas escolas, pagando um terço do salário delas do próprio bolso pra verem o seu salário aumentar 50 reais depois disso. Quando chegam em casa, elas ainda vão cuidar da casa e ensinar o dever prxs filhxs.

Brinco com elas que eu sou da “geração Toddy”: estudei no diurno, fiz as Iniciações Científicas que quis, viajei pra congressos com o dinheiro das minhas bolsas, porque nunca precisei me preocupar, durante a graduação, em como pagar as minhas contas. Pude viver de bolsa de mestrado e doutorado porque não tinha filhxs pra sustentar. Pude me dar ao luxo, desde o início do meu mestrado, de atuar em excelentes instituições,inclusive no Ensino Superior (o que, certamente, contribuiu muito para a minha aprovação no concurso). Então, pensem no quanto é ofensivo, não para mim, mas para a grande maioria da minha classe profissional, ouvir que “daqui a pouco, eu estarei ganhando mais”. Porque a grandessíssima parte das/dos minhas/meus colegas de profissão não têm o meu salário ou trabalham demais para ter. Porque eu não preciso de mais. Porque eu estou num esquema superprivilegiado de trabalho e não quero estar em outro lugar. Estou exatamente onde planejei estar há dez anos atrás.

E eu só estou nesse lugar devido aos imensos privilégios de classe média que eu sempre tive e vou continuar tendo. E não, nenhum de nós “só é feliz ganhando xx mil reais”. (Falem isso pra qualquer profissional da área de humanas e ganhem inteiramente grátis um sorriso constrangido ou uma gargalhada sarcástica.) E não, eu não me sinto, como em profissões mais privilegiadas socialmente, “escravizada pelo governo” (embora ache válidas manifestações para melhoria de condições de trabalho de professorxs universitárixs). Simplesmente porque não me sinto mesmo. E acho completamente descabida a comparação das minhas condições de trabalho às de escravos. Então eu te convido, junto comigo, a sair um pouco do próprio umbigo e reconhecer os privilégios que temos. É desconfortável, é dolorido, mas vale a pena. Bora?? 🙂

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