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Caminhão de luto

Custei a levantar da cama

mas é que fui atropelada

pelo caminhão de luto

 

Mando a cabeça

calar a boca

mas ela não obedece

 

Quero que o corpo

faça festa

mas ele se recusa

 

Suplico, então, pra a mágoa ir embora

mas ela se aloja

nas galerias profundas da garganta

 

E a dor lancinante

decide habitar, sem aviso prévio,

a boca do estômago sensível

 

E a gente tenta contornar

as bordas da dor

com a palavra

 

E ela fica ali dançando,

se equilibrando

na beirinha do abismo

 

Pois é, viver é um perigo

daí despejo palavras

no buraco negro da falta

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Ferrugem

Deixei contigo as chaves de casa

E você me devolveu enferrujadas

Completamente inutilizáveis

Talvez pra me mostrar, aqui fora, segurando na mão

A ferrugem do meu coração

Rima boba, metonímia da desesperança

Despedaça

A ferrugem entre os dedos quando deslizo a chave nas mãos

Te pedi cuidado,

Mas você deixou a porta aberta

E o coração fugiu, ou talvez só engastalhou na porta

Dizem por aí que não tenho mais coração

Mas ele só tá enferrujado

Pode ser que um dia, venha o cavalheiro da armadura brilhante

Com o óleo de cozinha em punho

Pra desenferrujar este coração doente

Que nada sente

Rima boba de novo no verso

No centro (ou, quem sabe, no avesso?)

Do coração enferrujado

Talvez o cavalheiro seja só o Homem de Lata

Que ganha um coração novinho em folha no final

O meu, coitadinho, agoniza

Porque você o deixou abandonado no tempo, pegando ferrugem

Aí ele parou de bater no tempo do amor

Tem hora que o real da metonímia é maior do que a rima

Aí fico aqui, brincando de prosear nas escansões do verso sem métrica

Coitado do verso! Tá que nem o coração: não sabe mais bater no ritmo

Talvez a vida seja este desalinho e este descompasso

Mesmo que de vez em quando

A gente cisme de brincar de rimar com algo ou alguém

Brinquei de rimar contigo, mas a métrica não bateu

Aí preciso ir ali no chaveiro pra abrir a minha porta

Porque você enferrujou as minhas chaves e nem me avisou

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Você quer o que você deseja?

Este é o título de uma obra de Jorge Forbes que não li, mas cujo título mexeu comigo. Fiquei pensando nessa diferença, discutida tangencialmente no meu cartel de psicanálise, entre o “Wurst” (querer) freudiano e o “désir” (desejo) lacaniano. Quando eu decidi que não desejava mais permanecer casada, fiz uma série de demandas a mim mesma, como: “só namoro alguém que tenha um salário”; “só namoro alguém que me deseje sexualmente” e etc. Estas eram coisas que eu queria. Pois bem: namorei um professor. Salário parecido, mas cheio de dívidas. Desejo sexual aceso, mas demandas impossíveis, e um tanto autoritárias, de relacionamento aberto (“se não for assim, eu não quero”. Eu eu que me virasse pra dar conta de absorver coisas que levavam tempo pra mim). Fico aqui pensando que o querer está no campo da demanda, enquanto o desejo é algo de outra ordem. Eu sempre fui dessas pessoas que fazem listas: desde “to-do lists” a listas de profissões ingratas. Nessa vibe da demanda, rolavam listas de coisas que eu queria no próximo namorado. Salário parecido e desejo sexual aceso eram coisas que eu queria. Mas era isso mesmo que eu desejava? Ou: a demanda dirigida ao outro coincidia com o meu desejo? Me parece que não. Nunca sofri tanto num relacionamento amoroso, pois lidava cotidianamente com uma pessoa extremamente confusa, e passei a me sentir uma pessoa insuportável, que ficava a todo o tempo situando o outro e articulando em voz alta reclamações e cobranças (novamente, no campo da demanda), a partir de um lugar de extrema insegurança que nunca havia ocupado em relacionamentos anteriores. E eu não desejava mais ser essa pessoa insuportável, lidando e respondendo a demandas insuportáveis (eu sei que há quem goste de ficar reclamando e etc. Eu logo encho o saco desse lugar). Eu não sei o que da ordem do desejo. Só sei que é uma ordem que não cabe nas minhas listinhas ordenadoras (que dizem de uma outra ordem, a da demanda). Este ano, não fiz uma lista de “coisas que quero” (e isso é um avanço maravilhoso e aliviante). Da mesma maneira, não fiz uma lista do que quero no próximo namorado. Arrisco apenas dizer que desejo cuidado, na polissemia até meio contraditória que o termo possui.

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Gaiatice

Entrei de gaiato num navio já bem cheio de gente. Só espero não ter entrado pelo cano. O que se anuncia é um banquete. Sem hora pra terminar, só que sem data pra começar. Mas se a mim sobrarem as migalhas e os descuidos, vou mesmo é pra minha jangadinha. Capenga, mas com espaço suficiente pra esticar as pernas, pescar o peixe do almoço e saborear o vento no rosto. Enquanto isso, tento me divertir no compasso da música que toca, e que não sei bem qual é, pois vem do salão onde todos dançam espremidos, enquanto observo do convés, batendo os pés no ritmo que ressoa no corpo. Respiro. Pode ser que parte das pessoas que vejo sejam meus próprios fantasmas e as projeções de mim mesma. De todo modo, ocupam tanto espaço com mais gente, que não sei se há espaço para que eu exista. Então, quero mesmo é soltar o corpo e dançar no convés, respirando o ar fresco (em vez do ar abafado do salão), ignorando esse monte de gente ali espremida, que me espreita não solicitadamente pelo vidro. (E ai, como me incomoda! Por mim, nem saberiam da minha insignificante existência.) Até que a música se acabe. Até que o desejo se apague. Até que você volte pro salão (já que insiste) pra dançar sem música, enquanto todos batem palmas, aclamando a liberdade. Eu nem quero o banquete: quero mesmo é respirar. E dançar junto quando for possível. Só não tente me arrastar pro salão. Nele, sou obrigada a seguir um compasso que nem é o meu. Quero navegar contigo no nosso tempo. E no nosso ritmo. Quando for possível. Mãos dadas e boas comidas. E outras boas comidas. Sem ninguém à espreita. Sem compassos rápidos a serem seguidos rigorosamente, e num tempo curto. Quero mesmo é poder dar gargalhadas pisando no pé. Inábil. Bamba. Inebriada com o frescor do vento abundante. Feliz por ter espaço. Voo. Vem comigo? Não quero de gaiato: quero a gaiatice.

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Seca

É o peito que desafina

Sem métrica nem rima

E dói

Na vitrola o disco arranha:

“Nunca mais serei amada”

Encontros desencontrados

Como ondas no rasinho

Chegam muito perto

Lambem os pés, às vezes

Mas logo se vão

Esturricando na areia

Deliro

Entre possibilidades e promessas

Tenho sede na aridez inóspita

Implacável

Gotas de suor ostensivamente arrancadas

Imploro

O choro se desmancha instantaneamente

Na secura afetiva dos dias

Vertigem

De tanto não ser enxergada

Desapareço

(E ninguém nem nota)

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Pot-pourri

[Pra ler ouvindo:]

A vontade que dá é de roçar a minha língua quente e úmida na sua. Aquele beijo longo, demorado, molhado, suado. De pilotar seu tórax, arranhar de leve seu peito e ouvir sua respiração profunda quando dorme. Mal sabe você que eu tenho esse superpoder, de te ouvir, de te observar e de continuar aquela conversa que não terminamos ontem, ainda que mentalmente. E bate uma querência, uma vontade danada de sentir e de cheirar e de chupar esse seu gosto. Aí tem essa mania. De rolar, rolar, rolar com você, de dançar coladinho sem roupa em slow motion. E eu fico que nem adolescente, fazendo playlists e ouvindo baladinhas em loop infinito. Vida, vida, noves fora, zero: o que resta é esse devir multissensorial, essa vontade de cantar baixinho no seu ouvido as novas músicas que selecionei. Restam também essas reminiscências de você; do encaixe perfeito do seu corpo quando penetra o meu; do seu calor colorido que me dá taquicardia, que nem quando faço samba e amor até mais tarde. Olha só: já temos uma música só nossa, mas que só eu sei. E aí vem a angústia risonha dessa paixãozinha platônica, que nem quando eu tinha 15 anos. E você se torna esse príncipe-donjuan-do-cavalo-branco, tão miseravelmente humano e falho, enquanto eu torno de um lado pro outro da cama, não sei se preguiçosa ou se covarde, doida pra gente se entornar, se transbordar, e se amar como se não houvesse amanhã. Conto as horas pra poder te ver, mas o relógio tá de mal comigo. Bobo, bola, balão, são-joão: a gente se ilude, dizendo “já não há mais coração”. Não só farejo, como quase tateio esse gosto danado de te querer mais. Estranho seria se eu não me apaixonasse por você.

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Esclarecimentos sobre ser anticasamento e antifilhos

Bom, vamos aproveitar que hoje eu estou paciente e postar algumas coisas a título de esclarecimento de um post do Facebook em que disse ser anticasamento e filhos num post de homenagem a uma amiga que pensa como eu:

1. Quado eu digo que sou/era anticasamento, não significa que eu não goste ou queira relações estáveis na minha vida. Gosto de rotina, de saber se o outro gosta do pão branco ou torradinho, de observar as manias e de criar intimidade. Amo intimidade. É ela que nos permite coisas maravilhosas, desde ouvir com atenção o mundo do outro até fazê-lo gozar com mais qualidade. Mas sou questionadora (agora com mais propriedade), de um determinado modelo tradicional de casamento. Em resumo, é aquele lance: nunca me vi vestida de branco, mas choro em casamento de igreja. No de pessoas queridas, copiosamente.

Contraponto: tem gente que, ao contrário de mim, não gosta de se envolver em relacionamentos. Pergunto: qual é o problema? Pra mim, zero. Sou muito mais uma pessoa honesta consigo e com xs demais do que alguém que tenta, desesperadamente, se encaixar num modelo em que claramente a pessoa não cabe.

2. Quando eu digo que nunca quis ter filhos, não siginifica:

a) Que eu odeie crianças. Ao contrário: não posso ver umx tchuquinhx que fico louca: brinco, aperto, converso… Tô cheia de amigas parindo tchuquinhxs e fico aqui delirando. Inclusive, adoro conversar sobre a criação de crianças, sobre criar seres questionadorxs e etc. Acho que, se tivesse ido à frente com a psicanálise, teria um consutório de infantil.

b) Que eu não considere a ideia de ter filhxs. Às vezes eu penso (com frequência, até), daqui a uns 10 anos, em adotar uma criança maiorzinha, daquelas que “ninguém quer mais”, sabe? Porque TER FILHOS É DIFERENTE DE GERAR UM FILHO. Eu me lembro que, desde pequena, eu tinha pavor de me imaginar grávida. Tinha pavor de imaginar minha barriga crescendo com “um neném mexendo dentro”. Ter um ser me parasitando, ficar louca com hormônios, perder inúmeras noites de sono… é só pras fortes, viu? E no mais, não faço questão de espalhar meus genes por aí e nem de trazer mais alguém pra esse mundo cruel e superpopuloso.

c) Na verdade, esta é uma questão muito controversa pra mim. Porque a única coisa que eu sei que não dá pra desistir é filhx. Você pode desistir do emprego, da casa, dos amigos, até mesmo da família. Mas de filhx você não desiste. E, sinceramente, acredito que a relação mãe-filho é cheia de construções e adaptações. Não tem essa de “amor incondicional à primeira vista”. Tem muito amor sim, mas também vontade de sair correndo, de ter seu tempo só pra você, de não se preocupar constantemente com outra criatura, de não ter uma fonte constante de gastos e etc. E isso tudo me apavora por demais. Por enquanto, a vibe “tia” me agrada muito mais.

 Contraponto: tem gente que simplesmente não gosta de criança, não tem paciência. E qual o problema? Zero, né? O problema é quando essas pessoas ligam o “piloto automático da vida” e têm filhx. Aí a tendência é a coisa ser bem desastrosa.

Resumão da ópera: pode ser que eu me case de novo? Pode. Pode ser que eu gere um filho? Pode. Porque a vida é muito mais circunstancial e maluca do que a gente imagina. Mas vejo zero problemas em ser honesta comigo e com xs demais em assumir uma postura de questionar escolhas que fazem parte do “piloto automático da vida”. Sempre serei uma pessoa de opinões convictas e apaixonadas. Mas também sempre essa pessoa aberta ao fluxo da vida. Porque “um lance de dados jamais abolirá o acaso” 😉

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