Archive for Reflexões bestas

Das agruras de se escolher uma profissão desvalorizada socialmente (e dos privilégios invisíveis)

            Queridxs familiares e amigxs,

Obrigada por compartilharem comigo um momento de felicidade como este! Mas preciso pontuar uma coisa: a cada vez que vocês me dizem: “Parabéns!! Daqui a pouco você sobe mais ainda!” ou “Daqui a pouco você vem pra mais perto!”, indiretamente, vocês estão me dizendo que acham que eu estou no lugar errado; que eu deveria estar num lugar melhor, tanto do ponto de vista geográfico, quanto do profissional. Eu sei que a maioria de vocês diz isso porque, mesmo não sabendo o quanto eu ganho, imaginam (e imaginam certo) que não deve ser um salário de seis dígitos de um juíz. Nem mesmo um salário de cinco dígitos de um médico recém-formado. E que eu poderia ser juíza (e ter passado em Direito com a minha pontuação do vestibular). E que eu deveria ganhar mais e proporcionalmente à minha inteligência (seja lá o que isso for). Entendo que é uma atitude de carinho. Mas deixa eu contextualizar uma coisa pra vocês.

Fazer Letras (e não Direito) foi uma epifania do fim do Ensino Médio que deu certo. Muito certo. Fazer mestrado e doutorado enquanto uma parte pequena da minha turma já ganhava mais do que o suficiente para pagar as contas foi uma escolha de longo prazo. Que deu certo. Passar num concurso pra Adjunta no Nordeste logo depois de terminar a tese também foi um sonho que deu certo. O meu salário não chega a cinco dígitos. Mas é muito, muito maior do que o salário das minhas alunas que fazem especialização à noite ou à distância, após uma jornada de trabalho em, pelo menos, duas escolas, pagando um terço do salário delas do próprio bolso pra verem o seu salário aumentar 50 reais depois disso. Quando chegam em casa, elas ainda vão cuidar da casa e ensinar o dever prxs filhxs.

Brinco com elas que eu sou da “geração Toddy”: estudei no diurno, fiz as Iniciações Científicas que quis, viajei pra congressos com o dinheiro das minhas bolsas, porque nunca precisei me preocupar, durante a graduação, em como pagar as minhas contas. Pude viver de bolsa de mestrado e doutorado porque não tinha filhxs pra sustentar. Pude me dar ao luxo, desde o início do meu mestrado, de atuar em excelentes instituições,inclusive no Ensino Superior (o que, certamente, contribuiu muito para a minha aprovação no concurso). Então, pensem no quanto é ofensivo, não para mim, mas para a grande maioria da minha classe profissional, ouvir que “daqui a pouco, eu estarei ganhando mais”. Porque a grandessíssima parte das/dos minhas/meus colegas de profissão não têm o meu salário ou trabalham demais para ter. Porque eu não preciso de mais. Porque eu estou num esquema superprivilegiado de trabalho e não quero estar em outro lugar. Estou exatamente onde planejei estar há dez anos atrás.

E eu só estou nesse lugar devido aos imensos privilégios de classe média que eu sempre tive e vou continuar tendo. E não, nenhum de nós “só é feliz ganhando xx mil reais”. (Falem isso pra qualquer profissional da área de humanas e ganhem inteiramente grátis um sorriso constrangido ou uma gargalhada sarcástica.) E não, eu não me sinto, como em profissões mais privilegiadas socialmente, “escravizada pelo governo” (embora ache válidas manifestações para melhoria de condições de trabalho de professorxs universitárixs). Simplesmente porque não me sinto mesmo. E acho completamente descabida a comparação das minhas condições de trabalho às de escravos. Então eu te convido, junto comigo, a sair um pouco do próprio umbigo e reconhecer os privilégios que temos. É desconfortável, é dolorido, mas vale a pena. Bora?? 🙂

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Da traição

Ele a estava traindo há alguns meses. Eles terminaram. Ela descobriu. E agora ela quer que ele morra. Logo ela, que é uma pessoa tão doce. Logo ela, que apostou tudo num relacionamento longo. Logo ela, que o afofava, que fazia tudo por ele. Ele estava cada vez mais sufocado. A vida mudando vertiginosamente, e ela ali parada, sempre esperando por ele. E ele querendo que ela fosse mais independente. E ele querendo se jogar  na vida. E ele não conseguiu se conter, mas também não teve coragem de romper, porque era um processo. E ele não conseguiu pensar muito além de si mesmo.

Esta historinha é conhecida de muita gente. Aconteceu com pessoas próximas há pouco. Já aconteceu com muita gente ao longo da vida. Há variações dos papéis, e, por vezes há variações no enredo, mas a estrutura de desigualdade costuma não variar muito – ainda que os papéis possam se inverter. Eu já fui traída. Acho que foi a segunda humilhação mais forte que senti na vida. Primeiro, a dor aguda no peito, a sensação de que você está sendo esmagada, de que o mundo, de repente, virou um cantinho pequeno demais pra te caber. Depois, a sensação de “como eu fui uma idiota!”, prontamente seguida de um “Quero que ele morra!”. Eu entendo demais a dor, a humilhação e a raiva.

O que eu não costumo entender muito, é como as pessoas simplificam excessivamente um ato de traição, e já correm pra bater o carimbo de “culpado/a” em quem trai. E culpado/a significa culpado/a pelo fim do relacionamento, culpado/a pelos problemas que o relacionamento vinha trazendo, enfim, culpado/a por tudo. Acho de um reducionismo absurdo, até burro mesmo,  desconsiderar tudo o que alguém foi pra você, desconsiderar tudo o que aquela pessoa tem de bom, tudo o que você aprendeu num relacionamento, e reduzir isso à traição. É de uma puta injustiça. Arrisco a dizer que é muito mais fácil assim: eu sou a vítima, o/a outro/a é o culpado/a e eu vou ali apontar meu dedo pros outros. Uma vez, um tio meu tava pra separar. Aí ele tinha arrumado uma amante. E todo mundo da família dizia que “ele tava separando por causa da outra”. E eu tenho mesmo dificuldade de entender porque “a/o outra/o” é sempre visto como causa, e nunca como consequência.

Porque “veja bem”: na minha cabeça, outra pessoa na relação, em casos de relação monogâmica tradicional, salvo os casos em que as pessoas são poligâmicas, adoram experimentar, mas insistem em relacionamentos monogâmicos (olha, conheço um monte de gente, hein! Mas monogamia/poligamia é assunto pra outro post), costuma ser sintoma de que MUITA coisa já não vai bem. De que a corda, esticada há um tempão, arrebentou. Então, acho que vale o questionamento: o que EU, ser que foi traído/a, posso ter feito para que uma das consequências (geralmente, traição nunca vem sozinha) fosse a traição?

No meu caso, eu insisti por muito tempo em escolher caras bastante “problemáticos”: em geral, pessoas com muita dificuldade de relacionamento ou pessoas com muita dificuldade de progredir no que quer que fosse (os caras nunca se formavam, sempre eram filhos muito protegidos pelos pais, enfim…). Então, a coisa já começava emocionalmente desigual. E vale dizer que a minha autoestima não valia muito, então, eu agradecia pelas migalhas e dava graças a deus por não estar sozinha. Depois, passou a ser financeiramente desigual também. E isso era algo que os caras não engoliam: ter uma mulher que se virava, que ganhava mais que eles. E eu era cruel. E jogava as diferenças na cara. Até que a corda partiu. E ele se vingou. E jogou na minha cara, por meio de atitudes cruéis, que ele tembém tinha poder. E que ele podia ser mais forte. E que eu não sabia de tudo. E doeu muito. Mas aprendi, acho. Espero.

Fiz mais do que apontar dedos: tentei analisar o que EU podia mudar. E tive o meu primeiro relacionamento civilizado, apesar de ainda bem desigual e de ter muitos padrões que se repetiam. Até que a corda partiu. A minha corda do padrão descaradamente desigual. E eu tive coragem de ter alguém na minha vida que tinha o meu nível de estudos, que trabalha, que teve coragem. Uma coragem que eu não teria. De recomeçar. De se recompor muito rápido num ambiente totalmente desconhecido. Enfim: não vou dizer que me livrei totalmente dos padrões. Padrões sempre se repetem. Mas podemos buscar mais igualdade. Podemos parar pra pensar no que precisamos mudar.

E você, o que aprendeu ou pode aprender com uma traição? O que pode fazer, além de apontar dedos e encontrar culpados/as? O que pode mudar? Que cordas pode arrebentar para ter relaciomentos mais livres?

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FAQ- Por que não a Europa ??

Bom, tô voltando pro Brasil, de mala e cuia, pra ficar. Isso leva à fatídica pergunta: “Mas Maíra, por que você tá voltando??

Resposta: Bom, eu poderia responder várias e várias coisas, mas vou resumir: meu organismo não foi feito pra suportar o inverno europeu. É, eu também adoro o frio. Do Brasil. Com 12 horas de luz. É, é lindo roupa de frio, neve, usar casaco. Nas férias. Quando você está afim. Vem morar aqui e aguentar 8 meses de inverno, neném (não, as estações NÃO são bem definidas). Neve é um pé no saco: bloqueia vias, tira os ônibus de circulação, é chato pra andar e dá preguiça de ir ao supermercado da esquina, porque você precisa vestir 4 calças e 3 blusas e um casacão. Na verdade, meu problema maior foi com a falta de luminosidade. 5h da tarde já era noite e 8h da manhã era como 6h da manhã. Isso pirou o meu organismo: hibernava por horas durante o dia e, não importava o quanto eu dormia, ficava com um cansaço e um sono sem explicação. Não produzi merda nenhuma pra tese. Não fiz amigos multiculturais. Não saí de casa. Não viajei.

A Europa é tão multicultural! Morar aí dá bem mais oportunidade de conhecer gente do mundo todo!

Resposta: Na Suíça, isso é falácia. Desconfio que em boa parte da Europa também. As pessoas aqui, incluindo brasileiros e brasileiras, não têm esse espírito interativo, que nem no Brasil: ninguém quer ser abordado por um estranho, ninguém quer te dizer como está, como está a família, o cachorro, etc. As pessoas te olham torto porque você fala alto, mesmo quando você fala baixo. Elas olham horrorizadas quando você dá uma risada, mesmo que não seja das mais altas. Na aula, eu era o animal exótico sempre em observação. Vale lembrar uma coisa: a Europa está vivendo um contexto pós-crise e nunca a extrema direita esteve tão forte. Aqui na Suíça, 30% do poder está nas mãos da extrema (atenção: EXTREMA) direita. Isso te lembra alguém? (É fácil, começa com H…) Acho que isso demonstra a pouca disposição das pessoas em aceitar estrangeiros, não? Eles precisam culpar alguém pela crise. Então, o inimigo número 1 são os muçulmanos. Mas os latinos ladrões de emprego (empregos que eles não querem fazer nem por decreto, mas zuzo bem) também entram no bolo. Eles tão doidos pra gente cascar fora logo. De novo: uma coisa são suas férias maravilhosas de 15 dias num albergue irado. Outra bem diferente é morar e criar laços de amizade duradouros.

Nossa, mas é táo fácil viajar na Europa! Você pode ir a cada fim de semana para um lugar diferente!

Resposta: Fato. Ainda mais com as passagens vendidas pelas companhias aéreas low cost. Mas não preciso morar na Europa para aproveitar essa facilidade: junto dinheiro e venho NO VERÃO passear e conhecer os países que quiser, sem correria, sem pensar na tese e com dinheiro que não seja destinado à minha mal e porca sobrevivência na quarta cidade mais cara do mundo. Há afirmações que prefiro não comentar, porque quem até quem não me conhece tão bem assim pode imaginar que acho uma estupidez completa: “Nossa, mas a Europa é tão mais civilizada do que o esse esgoto de Brasil!” Mesmo assim, darei uma pequena resposta, dada por um professor fodaço do depto de Línguas Eslavas da Universidade de Lausanne, que vai sempre ao Brasil dar cursos e fala português perfeitamente: “O Brasil de hoje é a França de 1968”. E é isso que o Brasil representa pra mim: um território em debate, cheio de esperança com muita coisa a ser construída. Quero muito, muito mesmo participar de perto deste momento histórico único, com a esquerda no poder, abrindo um caminho cada vez mais fecudo para a construção de um Estado de Bem-Estar. Tenho um orgulho imenso do meu país, do crescimento real e concreto pelo qual estamos passando e quero, mais que tudo, escrever essa história. Deixem suas perguntas na caixa de comentários, que posso fazer um FAQ parte II! 🙂

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Preconceito, substantivo feminino?! (parte 1)

Eu tô azeda com um episódio de racismo que vivi recentemente na Europa. Resumindo bem a situação, estou namorando com um europeu « loiro dos zôio azul » e fui considerada (pelas costas, é claro), como uma aproveitadora, que está com ele para obter cidadania. Bom, passei da fase 1 = « sangue nos zóio » + « provar que não é verdade » para a fase 2 = « tentar digerir e racionalizar o assunto ». Pois bem : em plena era tecnológica, resolvi dar uma googlada em « mulheres brasileiras visto », e eis que me deparo, via um blog, com a capa da revista « Focus », com uma bunda e a chamada “Os segredos da mulher brasileira “.

Para continuar lendo, clique aqui.

Estou colaborando quinzenalmente no blog “Blogueiras feministas”. Sim, resolvi sair do armário… Em breve, a brilhante série “Saindo do armário”, não percam!

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Feminazi

Contextualizando um pouco…

Ontem, no blog do Nassif, foi publicado um texto que provocou muita indignação na blogosfera feminista. Só para contextualizar um pouco a história, o Nassif publicou um comentário avulso do André, em que o autor critica as feminazis, que, segundo o autor, serve para designer “feministas radicais” (seja lá o que isso queira dizer, mas enfim…) Na verdade, o que me espantou muito (e à maioria das integrantes da lista “blogueiras feministas”, foi ver um texto com um alto teor preconceituoso publicado num blog de esquerda, dito progressista, sem nenhuma ressalva por parte do dono do blog. Até, então, não fica muito claro para mim qual é o posicionamento  de Nassif em relação aos comentários de André, pois o comentário só foi descontextualizado e  colado num post, sem maiores explicações. O que tendo a pensar, quando vejo algo assim, é que quem publicou o post concorda com a opinião ali exposta. Caso não seja assim, então devo dizer que Nassif falhou em não explicitar as razões de publicar um post com tal teor reacionário.

Alguns equívocos contidos no texto de André

Na tentativa de demonstrar as incoerências dos comentários de André, transformados num post por Nassif, algumas pessoas, incluindo a Lola, fizeram posts para explicar como os argumentos de André são falaciosos e preconceituosos (vale ressaltar que a assertividade das respostas rendeu o título de « barraqueiras » àquelas que se manifestaram. Aliás, essa palavra é frequentemente utilizada para se referir pejorativamente a mulheres, apenas. Ou você já viu algum homem ser chamado de « barraqueiro » ? Mas divago…). Aí vão alguns argumentos levantados pela Lola (suprimi alguns trechos irônicos, já que ironia feminina pode ser poerigosamente rotulada de « barraco) :

1-      «André diz que feminazis são feministas radicais, sem definir exatamente o que seria esse radicalismo. Ele parte da dúvida “Seria Dilma uma feminazi?” (pois Dilma, numa entrevista pro Washington Post, disse que era contra o apedrejamento de mulheres). Mais adiante, nos comentários, ele diz que sim, a declaração de Dilma poderia ser interpretada como de uma feminazi, já que ela condenou apenas a morte de mulheres, não de homens. Ou seja, sempre que estivermos falando de estupro, devemos dizer que somos contra os estupros de homens também. Caso contrário, estaremos nos manifestando a favor do estupro de homens. Hum, sério, você já conheceu alguém que fosse contra o estupro de mulheres, mas não o de homens? »

2-      André não fala coisa com coisa, e isso fica ainda mais visível quando ele se atrapalha nos comentários. É incapaz de uma argumentação linear. Por exemplo, quando alguém lhe ensina que o termo feminazi foi criado em 1992 pelo ultraconservador Rush Limbaugh, André diz que só porque algo foi criado por alguém não muito bem-credenciado não significa que haja um erro, e, como exemplo, diz que, se não fossem os americanos, não haveria internet, ou que o rap não deve ser odiado por ser popular entre “a bandidagem”. Hã?

3-      O mal de André com as feminazis é que, pelo que pude entender, algumas mulheres não gostam dele e o veem como inimigo, só porque, em outro post também publicado pelo Nassif, ele defendeu o Dia do Homem, tadinho. Tipo, pra ele as profissões mais mal pagas cabem aos homens. Tsc, tsc. No grande livro que é Backlash, Susan Faludi explica justamente o contrário. Na nossa sociedade, um dos trabalhos que um homem com menor qualificação pode ter é auxiliar de pedreiro. Para a mulher, é empregada. Em geral, um auxiliar de pedreiro ganha mais que uma empregada. Um pedreiro ganha mais que uma cabeleireira. Assim como um chef ganha mais que uma cozinheira. Um estilista de moda ganha mais que uma costureira. Precisa continuar? Fazer com que certas profissões sejam identificadas apenas a um gênero (a maior parte dos psicólogos é mulher; a maior parte dos psiquiatras é homem — quem ganha mais, um psicólogo ou um psiquiatra?) é uma forma de fazer com que mulheres recebam menos que homens. Adoraria ver uma estatística que provasse que não, mulheres têm salários maiores no nosso mundo. Ha, não tem nem quando exercem a mesma função!

 

4-      Nos comentários, André especifica que feminazis são mulheres que querem o extermínio de todos os homens. Hã, talvez tais mulheres existam (eu nunca conheci, mas tem louco pra tudo), mas digamos assim, elas são representativas de alguma coisa?

Acho este último trecho importante, pois o equívoco de André (e de todos aqueles que se dizem contra o feminismo), a meu ver, nasce de uma ignorância em relação ao feminismo. Elas costumam pensar que as feministas odeiam os homens, que são contra os homens e querem destruí-los ou que o feminismo é um machismo ao contrário quando, na verdade, o feminismo só prega a igualdade de direitos. Ser a favor do direito das mulheres não significa ser contra o direito dos homens, certo ?

O equívoco do termo “feminazi”

Bom, voltando à “vaca fria”, por que o termo feminazi gerou tanta indignação ? Porque ele reflete ignorância (pra dizer o mínimo) por parte de quem o usa. É um termo que encontra respaldo apenas no preconceito. A Cynthia Semíramis explicou isso de forma bem didática num post. Reproduzo algumas explicações :

1-      Feminazi é um termo que mostra completa ignorância a respeito não só de feminismo e luta pelos direitos das mulheres, mas de conhecimentos básicos de história. Feministas foram perseguidas pelos nazistas, que tinham uma visão extremamente limitada: mulheres deveriam obrigatoriamente ser mães, portanto estudos superiores e creches foram limitados, e aborto e métodos contraceptivos foram proibidos. O discurso feminista de emancipação das mulheres foi atribuído aos judeus, aumentando os motivos para persegui-los. A política nazista é anti-feminista, como bem demonstrou Kate Millett.

 

2-      Em suma: feminazi é um termo que denota ignorância ou má-fé de quem o profere, pois vai contra tudo o que se sabe sobre nazismo e sobre feminismo. Feminazi é um termo que só é utilizado por conservadores para tentar desqualificar quem luta pela implementação dos direitos das mulheres.

 

O receio da Cynthia (e o meu também) é que o termo comece a ser usado a torto e a direito pela mídia, sem que se atente para o fato de que, no fim das contas, trata-se de uma manipulação conservadora ou, no mínimo, de uma ignorância histórica.

 

O perigoso conservadorismo da esquerda nas discussões de gênero

Na verdade, o que me assutou (e me deixou bem triste), foi ver um termo com alta carga de pereconceito ser utilizado num blog progressista sem nenhuma ressalva. Na verdade, pra mim, isso só legitima o pensamento conservador, a partir do momento em que o próprio Nassif não faz questão nenhuma de diferenciar sua voz da voz da direita. Reproduzo alguns argumentos da Marília Moschkivich, qua aborda não só a attitude do Nassif, mas tantas outras de pessoas que se autointitulam e são intituladas como « progressistas » [grifos da autora]:

1-      A reflexão que quero fazer aqui é de um buraco mais embaixo: o machismo da esquerda, dos progressistas, dos revolucionários. Bem, que um conservador do PP, do PSDB, etc. exiba por aí seu machismo, é esperado. Afinal de contas, em momento nenhum eles pregam a igualdade, a justiça social, etc. O problema maior é quando todos aqueles que se dizem em busca de “um mundo melhor” ou do tal “outro mundo possível” (pra relembrar o mote dos fóruns sociais mundiais) esquecem-se de que as mulheres estão incluídas nessa “justiça”, “igualdade” e “sustentabilidade”.

 

2-      Historicamente entre os partidos comunistas, as questões das mulheres são colocadas em segundo plano, como se a mudança no modo de produção fosse automaticamente instaurar a igualdade de gênero. Como se a classe trabalhadora não tivesse práticas machistas ela mesma – como se tudo fosse uma consequência do capitalismo. Não é. A “causa das mulheres” (mais creches, ou licença maternidade, salários iguais, etc) é considerada secundária e as nós feministas somos consideradas divisionistas, o que representaria um problema na revolução.

 

3-      A esquerda é cheinha de indícios deste tipo de pensamento, a começar pelo fato de que seus partidos não fazem esforço ALGUM para eleger igualitariamente mulheres e homens e têm muito poucas mulheres em diretorias e cargos de poder. Isso sem falar em práticas ainda mais chocantes de militantes, como no PCO pedirem às militantes que usem seu poder de sedução para trazer novos membros e filiados aos partidos. Juro, história real, de uma amiga. Aconteceu mesmo.

 

4-      Ou seja: o discurso é lindo! Revolução, socialismo, comunismo, ecovilas, sustentabilidade ambiental, economia solidária, redes, UHU! Mas quando vamos falar em abolir práticas machistas, opressoras, de dominação, somos comparadas a nazistas. Somos chamadas de chatas e loucas por insistir tanto nesse assunto, como se as mulheres tivessem salários iguais, acedessem a posições iguais no mercado de trabalho, tivessem o mesmo apoio que os homens têm das famílias em suas empreitadas individuais, etc.

Na verdade, a intenção aqui não é de “pichar o Nassif”, mas de pegar o caso como um exemplo ilustrativo de como vários equívocos em relação ao feminismo são simplesmente disseminados por aí. Nossa preocupação é ver isso ocorrendo, inclusive, em meios progressistas, em que acreditamos (ou acreditávamos) ser possível um debate lúcido sobre a igualdade de gêneros. Porque, se um comentário preconceituoso sobre as feministas pode ser publicado, temos direito de resposta. Ou não ?

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Resposta aos SPAMS

Bom, gente, este é o último post antes das eleições (YAY!). Logo no início do primeiro turno, recebi um e-mail anti-Lula e respondi. Acho que a lista de perguntas que recebi e o que respondi ilustra claramente os posicionamentos de quem é de direita e de quem é de esquerda. Vale dizer que, no segundo turno, recebi um e-mail daqueles ultra baixo nível e um outro apenas comparando uma foto da Dilma com a Noiva de Chucky (patético, diz aí). Como respondi a todos, parei de receber esses spams, graças a dada. Mas aí vão as mensagens. Vale a pena ler e refletir sobre os diferentes posicionamentos… Ah, vale lembrar que as perguntas foram sugeridas pelo TIO REI (é engraçado, eu sei…)

Se esta mensagem circular de maneira vigorosa, o Jornal Nacional vai ter queenfrentar o Lula e perguntar aquilo que todos nós queremos saber.

Queremos que Bonner e Fátima façam as perguntas a Lula que o ReinaldoAzevedo sugere para a entrevista do Jornal Nacional:

1) O senhor prometeu criar 10 milhões de empregos e chegará ao fim domandato criando quatro milhões. Neste tempo, a renda da classe média caiu, e os empregos gerados se concentram na faixa de até 2 salários mínimos. A chamada distribuição de renda do seu governo não se faz à custa do empobrecimento dos menos pobres?

2) O Senhor disse que banqueiro lucra no seu governo e, por isso, não precisa de Proer. O Senhor sabe quantos Proers o Brasil paga por ano para sustentar os juros reais mais altos do mundo?

3) O seu filho, até bem pouco tempo antes de o Senhor assumir a Presidência, era monitor de Jardim Zoológico e, hoje, já é um empresário que a gente poderia classificar de milionário. O Senhor não acha uma ascensão muito rápida?

4) Genoino sabia do mensalão. Silvio Pereira sabia do mensalão. Dirceu sabia do mensalão. Ministros foram avisados do mensalão. Só o senhor, da cúpula, não saberia. O senhor não acha que, nesse caso, não saber é tão grave quanto saber? E se houver mais irregularidades feitas por amigos seus que o senhor ignore?

5) Presidente, na sua gestão, as invasões de terra triplicaram, caiu o número de assentamentos e mais do que dobrou o número de mortos no campo. Como o senhor defende a sua política de reforma agrária?

6) O senhor não tem vergonha de subir em palanque onde estão mensaleiros e sanguessugas?

7) Presidente, em 2002, o Brasil exportava a metade do que exporta hoje, e o risco país era sete ou oito vezes maior. O país pagava 11% de juros reais. Hoje, continuamos a pagar mais de 10%. Como o senhor explica isso?

8) Em 2002, o governo FHC que o Senhor tanto critica repassou para São Paulo, na área de segurança, R$ 223,2 milhões. Em 2005, o seu governo repassou apenas R$ 29,6 milhões. Só o seu avião custou R$ 125 milhões. Não é muito pouco o que foi dado ao Estado que tem 40% da população carcerária do país?

9) Quando o Senhor assumiu, o agro negócio respondia por mais de 60% do superávit comercial. Quase quatro anos depois, o setor está quebrado, devendo R$ 50 bilhões. O Senhor não acha que o seu governo foi um desastre na área?

 

Minhas respostas:

1) O Reinaldo Azevedo é o cara mais reacionário que já vi em toda a minha vida! E hipócrita pq não se assume como sendo de direita.

2) O Jornal Nacional deveria se chamar Piada Nacional, pois é outro veículo de direita que se diz neutro. Quam ainda acredita nisso, basta comparar a agressividade de Bonner na entrevista de Dilma e de Serra no JN.

3) O mensalão é vergonhoso, mas não venham me dizer que o PSDB não é corrupto. Quem se lembra do escândalo dos sanguessugas e das ambulâncias, por exemplo? Talvez ninguém. Simplesmente porque varreram a poeira pra debaixo do tapete. AH, sem contar o MENSALÃO DO DEM, principla aliado do PSDB!

4) Esse papo do “Aerolula” vem desde a época do Alckmin que, na ABSOLUTA FALTA do que falar nos debates de 2006, vinha falar de “Aerolula”. De bolsa-família e de pagamento da dívida externa o PSDB não fala, né?

Nossa, que milagre um e-mail de direita não incluir em sua lista de clichês a “Dilma terrorista”!

E tem mais:

5) Por que será que Serra tem TANTO PAVOR falar do passado e NUNCA menciona o FHC? O engraçado é que ele menciona ter ido ministro da saúde, mas JAMAIS menciona o governo de que fez parte.

6) Se o PSDB é tão legal assim, por que é tão proibido “olhar no retrovisor” e comparar dois partidos que governaram o Brasil por um igual período de tempo?

7) Por que os  candidatos a deputado e senador do PSDB e coligações nunca colocam a foto do Serra no fundo (aqui em Minas, constam apenas as fotos de Itamar e Aécio), se ele pode ser um presidente tão bacana? (Agora experimente comparar com a propaganda do PT e coligações…)

8) E pra fechar: por que será que o governo Lula tem 80% de aprovação? (Não me venha com a velha respostinha de direita de que o povo é burro: 80% não inclui só pobres -que é quem a direita chama de “povo”).

Por favor, pessoas de direita, parem com essa mania de votar em (e atacar, inclusive) PESSOAS. Quem tem um mínimo de consciência política, vota em PARTIDOS! E se nem o Serra quer comparar o que PT e PSDB fizeram em 8 anos de presidência, vocês se arriscam?

Bom, só pra ficar no básico, porque e-mails sobre noiva de Chucky e aborto eu prefiro nem postar aqui no blog. Ah, pra esclarecer posicionamentos, vale DEMAIS ver a série Voto Serra Pq [clique em cada uma das três palavras para acesar os três vídeos], disponibilizada no Youtube

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Porque votar na continuidade

Recebi por e-mail um panfleto simples, direto e superinstrutivo, comparando os governos do PT e do PSDB. Campanha limpa é assim: em vez de brincar com os direitos humanos dos outros , apoia-se em fatos.

 

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