Archive for Esboços

Da traição

Ele a estava traindo há alguns meses. Eles terminaram. Ela descobriu. E agora ela quer que ele morra. Logo ela, que é uma pessoa tão doce. Logo ela, que apostou tudo num relacionamento longo. Logo ela, que o afofava, que fazia tudo por ele. Ele estava cada vez mais sufocado. A vida mudando vertiginosamente, e ela ali parada, sempre esperando por ele. E ele querendo que ela fosse mais independente. E ele querendo se jogar  na vida. E ele não conseguiu se conter, mas também não teve coragem de romper, porque era um processo. E ele não conseguiu pensar muito além de si mesmo.

Esta historinha é conhecida de muita gente. Aconteceu com pessoas próximas há pouco. Já aconteceu com muita gente ao longo da vida. Há variações dos papéis, e, por vezes há variações no enredo, mas a estrutura de desigualdade costuma não variar muito – ainda que os papéis possam se inverter. Eu já fui traída. Acho que foi a segunda humilhação mais forte que senti na vida. Primeiro, a dor aguda no peito, a sensação de que você está sendo esmagada, de que o mundo, de repente, virou um cantinho pequeno demais pra te caber. Depois, a sensação de “como eu fui uma idiota!”, prontamente seguida de um “Quero que ele morra!”. Eu entendo demais a dor, a humilhação e a raiva.

O que eu não costumo entender muito, é como as pessoas simplificam excessivamente um ato de traição, e já correm pra bater o carimbo de “culpado/a” em quem trai. E culpado/a significa culpado/a pelo fim do relacionamento, culpado/a pelos problemas que o relacionamento vinha trazendo, enfim, culpado/a por tudo. Acho de um reducionismo absurdo, até burro mesmo,  desconsiderar tudo o que alguém foi pra você, desconsiderar tudo o que aquela pessoa tem de bom, tudo o que você aprendeu num relacionamento, e reduzir isso à traição. É de uma puta injustiça. Arrisco a dizer que é muito mais fácil assim: eu sou a vítima, o/a outro/a é o culpado/a e eu vou ali apontar meu dedo pros outros. Uma vez, um tio meu tava pra separar. Aí ele tinha arrumado uma amante. E todo mundo da família dizia que “ele tava separando por causa da outra”. E eu tenho mesmo dificuldade de entender porque “a/o outra/o” é sempre visto como causa, e nunca como consequência.

Porque “veja bem”: na minha cabeça, outra pessoa na relação, em casos de relação monogâmica tradicional, salvo os casos em que as pessoas são poligâmicas, adoram experimentar, mas insistem em relacionamentos monogâmicos (olha, conheço um monte de gente, hein! Mas monogamia/poligamia é assunto pra outro post), costuma ser sintoma de que MUITA coisa já não vai bem. De que a corda, esticada há um tempão, arrebentou. Então, acho que vale o questionamento: o que EU, ser que foi traído/a, posso ter feito para que uma das consequências (geralmente, traição nunca vem sozinha) fosse a traição?

No meu caso, eu insisti por muito tempo em escolher caras bastante “problemáticos”: em geral, pessoas com muita dificuldade de relacionamento ou pessoas com muita dificuldade de progredir no que quer que fosse (os caras nunca se formavam, sempre eram filhos muito protegidos pelos pais, enfim…). Então, a coisa já começava emocionalmente desigual. E vale dizer que a minha autoestima não valia muito, então, eu agradecia pelas migalhas e dava graças a deus por não estar sozinha. Depois, passou a ser financeiramente desigual também. E isso era algo que os caras não engoliam: ter uma mulher que se virava, que ganhava mais que eles. E eu era cruel. E jogava as diferenças na cara. Até que a corda partiu. E ele se vingou. E jogou na minha cara, por meio de atitudes cruéis, que ele tembém tinha poder. E que ele podia ser mais forte. E que eu não sabia de tudo. E doeu muito. Mas aprendi, acho. Espero.

Fiz mais do que apontar dedos: tentei analisar o que EU podia mudar. E tive o meu primeiro relacionamento civilizado, apesar de ainda bem desigual e de ter muitos padrões que se repetiam. Até que a corda partiu. A minha corda do padrão descaradamente desigual. E eu tive coragem de ter alguém na minha vida que tinha o meu nível de estudos, que trabalha, que teve coragem. Uma coragem que eu não teria. De recomeçar. De se recompor muito rápido num ambiente totalmente desconhecido. Enfim: não vou dizer que me livrei totalmente dos padrões. Padrões sempre se repetem. Mas podemos buscar mais igualdade. Podemos parar pra pensar no que precisamos mudar.

E você, o que aprendeu ou pode aprender com uma traição? O que pode fazer, além de apontar dedos e encontrar culpados/as? O que pode mudar? Que cordas pode arrebentar para ter relaciomentos mais livres?

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Sobre o que não gosto aqui

Minha autoconfiança tá ali embolada e jogada fora nalguma lata de lixo. Talvez o maior desafio que eu tenho enfrentado ao viver em outro país não seja a língua, o frio ou a falta de sol: é que aqui eu de repente me deparei com uma Maíra fraca, medrosa, que morre de medo a ponto de ficar paralisada. Acho que eu estava com medo até mesmo de escrever, pois é difícil admitir que eu também posso não ter autoconfiança, não ser proativa, ter medo de não dar conta da minha pesquisa… São coisas que eu nunca senti antes, mas que vieram à tona com muita força aqui. Acho que ninguém gosta de se deparar com seu lado degradado, e aí a gente faz que nem o Dorian Gray e esconde todas as nossas imperfeições no porão, até que um dia encontramos o retrato de nossas próprias imperfeições.E pode ser aterrorizante aquilo que vemos.

Na minha pesquisa, nunca me senti tão perdida. Fico protelando, enrolando e querendo fazer todas as outras coisas que não sejam a pesquisa. Sinto-me perdida em meio de dois campos diferentes de interlocução e morro de medo de ser massacrada pelos quantitativistas. Tive um conversa bastante produtiva com meu orientador brasileiro e sua esposa, que me disseram que meu campo de interlocução tem que ser a área qualitativa, que é de onde eu venho e o que me interessa… Preciso bancar a minha escolha e enfrentar as críticas, logo eu, que me autocritico sempre e não suporto a ideia de falhar no campo acadêmico. Mas é o ônus de escolher fazer uma coisa nova e não repetir que nem vitrola arranhada o que várias pessoas já disseram por aí. Protagonizar mudanças, a minha ambição inicial, implica em riscos. Sinto falta da Maíra destemida e ousada, que simplesmente toca o foda-se e segue em frente com suas ideias absurdas e seus projetos ambiciosos.

Pra piorar a situação, estou numa cidade da qual não gosto. Levou um tempo para eu assumir pra mim mesma que não gosto de Genebra. Acho que é o lugar mais triste que eu já vi: o silêncio é opressor, as pessoas não sorriem nunca e as ruas são sempre vazias, especialmente depois das 6 da tarde. Reconheço que, se eu fosse mais elitizada, poderia gostar de dar um rolé pelas lojas da Louis Vuiton, pelas várias lojas de joias ou relógios, mas uma das coisas de que mais sinto falta no Brasil, é do seu João da farmácia que me pede pra trocar uma nota de 20 por duas de 10; é da D. Maria do EPA, que me diz que farofa Yoki é mais prática, é de diversidade…

Uma coisa que me choca aqui na Europa, até então, é a falta de diversidade no que diz respeito a pessoas: diferentemente do que eu pensava, aqui as pessoas são praticamente todas iguais, inclusive no modo de agir e em todos aqueles protocolos que eles adoram seguir. Não tem povo aqui, sabe? (Especialmente na Suíça, né) É tudo insuportavelmente igual. Esse mundo bege, pra mim, não tá com nada. Odeio o frio externo e o frio das pessoas. Sinto falta de conversar no ônibus com alguém que nunca vi, de buteco, de cinema barato, de feira lotada de gente e até de ônibus cheio. Sinto falta de 12 horas de luz, de salão de beleza uma vez por mês, de poder rir alto e ninguém se assustar, de comida com gosto de alguma coisa…

Quero voltar pro meu sol, pro meu povo, pro meu buteco, pro meu bairro… O fato de ter sido criada no interior também conta muito nessa vontade de “ter minha vida de volta”. Posso passar o resto da vida num grande centro, mas a cultura de querer conhecer e conversar com as pessoas; de prezar pela proximadade, sempre estará internalizada em mim. Não quero viver num lugar rico e sem graça nenhuma. Prefiro o caos colorido, como aquelas lunetas mágicas que tínhamos quando crianças, em que você olha num buraquinho, gira, e a cada hora vê figuras diferentes sendo formadas com pedrinhas coloridas.

Espero que 2011 seja mais produtivo do que 2010 aqui na gringolândia…

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Esse meu excesso de lucidez às vezes me confunde

Como aquela luz que você enxerga logo que sai de um túnel escuro:

tão reveladora que, paradoxalmente, cega.

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Pra alguém que é assim, sempre existe alguém que é assado

E eu sou o avesso

Passado

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Desejo

Antes crescia fruto do silêncio

Hoje cresce fruto de conversas

fruto do cotidiano

que se transforma

Cresce e devasta

E vasto se torna

E transborda

E entorna

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E então veio o silêncio, e com ele, o desejo. Eles conversavam casualmente; dois conhecidos que não se viam há longo tempo. O pequeno café era aconchegante; a comida era particularmente boa, como também o expresso. Ela tinha um humor que fazia parte dela naturalmente. Quando sorria aquele sorriso farto, balançava os ombros de modo peculiar. E tinha um jeito diferente de andar e de mexer nos cabelos, que ele antes não havia notado. Ele tinha um jeito comedido e simplório que a encantava. E ela nunca havia se dado conta do quão encantador era o jeito como ele sorria pra dentro de uma maneira charmosa e incisiva. Ele a levou para casa, e então começou a chover forte. E ela pensou que queria permanecer ali naquele carro pra sempre. E eles ficaram olhando a chuva pela janela, em silêncio. E ele pensou: “Eu simplesmente quero ficar aqui”. E foi assim que se beijaram, tendo aquele silêncio aconchegante como cúmplice. Permaneceram um longo tempo de mãos dadas e, depois, acariciando rosto um do outro. Então, ele pegou um bloco de notas no porta-luvas do carro, anotou o telefone. Ela fez o mesmo e desceu do carro depois de sussurrarem um “tchau” um para o outro. Olhou pra ele e jogou um beijo através do vidro molhado. Ele permaneceu ali por algum tempo, observando o andar dela até que ela entrasse em casa. Foi então que ele percebeu a mágica e foi invadido por um sentimento de que tudo ali era lindo. E que poderia permanecer lindo sempre.

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Pesadelo

Há dias vem me perseguindo. Agora talvez eu possa chamar de delírio persecutório: ele não existe mais, mas está lá, como uma reminiscência da memória que insiste em vir à tona, e insiste, e insiste. O pesadelo é o mesmo: evito ir a um determinado lugar porque ele estará lá. Medo de voltar à UFMG? Medo de reviver uma repetição estampada em outro relacionamento? Medo de que ele apareça na fatídica sexta-13 e me mate no sonho, tal como o Freddy Kruger?Não sei, só sei que está lá, repetindo-se com uma absurda insistência. Ultimamente, tenho colocado bilhetinhos coloridos para relembrar o que tenho que fazer ao longo do dia; cada ocasião merece um post-it de cor diferente, uma caneta de cor diferente e, no fim do dia, meu quarto é uma aquarela de reminiscências. De que cor seria um bilhete que o relembrasse, o que relembrasse o fatídico episódio que desencadeou todo o sentimento e todos os pesadelos de perseguição? É estranho porque, no fim das contas, fui eu quem o perseguiu, quando toda aquela sensação de totalidade se defez. Fui eu quem disse: “PÁRA”! Fui eu quem imputei a ele a culpa pelo fracasso e pela perseguição. Acho que foi a primeira vez na minha vida que não pensei “Desculpa por não ter atendido às suas expectativas”. E teria sido libertador, se não tivesse vindo acompanhado de um enorme sentimento de culpa. Acho que estou num processo de tornar-me uma pessoa diferente. Não diferente, porque a análise me ensinou que a gente não muda, mas pode se mover pra outros cantos e ressignificar as experiências. Mas sempre há algo que não é significado e que retorna sempre. Engraçado que quando penso nisso, sempre me vem a metáfora da divisão na cabeça: dividendo, divisor, quociente e resto. Sei lá, talvez isso seja a minha maneira obsessiva de enxergar as coisas. E sei que metáfora da divisão é um prato cheio pra algum lacaniano de platão. Mas eles que se entendam com as suas (super?)interpretações. Eu só sei que a angústia existe e é bem viva. E que não quero que repita até que se elabore, embora talvez seja esta um inescapável quase-lógica inconsciente. Ou talvez um limiar entre o terror e a saudade.

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