Archive for maio, 2017

Caminhão de luto

Custei a levantar da cama

mas é que fui atropelada

pelo caminhão de luto

 

Mando a cabeça

calar a boca

mas ela não obedece

 

Quero que o corpo

faça festa

mas ele se recusa

 

Suplico, então, pra a mágoa ir embora

mas ela se aloja

nas galerias profundas da garganta

 

E a dor lancinante

decide habitar, sem aviso prévio,

a boca do estômago sensível

 

E a gente tenta contornar

as bordas da dor

com a palavra

 

E ela fica ali dançando,

se equilibrando

na beirinha do abismo

 

Pois é, viver é um perigo

daí despejo palavras

no buraco negro da falta

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Ferrugem

Deixei contigo as chaves de casa

E você me devolveu enferrujadas

Completamente inutilizáveis

Talvez pra me mostrar, aqui fora, segurando na mão

A ferrugem do meu coração

Rima boba, metonímia da desesperança

Despedaça

A ferrugem entre os dedos quando deslizo a chave nas mãos

Te pedi cuidado,

Mas você deixou a porta aberta

E o coração fugiu, ou talvez só engastalhou na porta

Dizem por aí que não tenho mais coração

Mas ele só tá enferrujado

Pode ser que um dia, venha o cavalheiro da armadura brilhante

Com o óleo de cozinha em punho

Pra desenferrujar este coração doente

Que nada sente

Rima boba de novo no verso

No centro (ou, quem sabe, no avesso?)

Do coração enferrujado

Talvez o cavalheiro seja só o Homem de Lata

Que ganha um coração novinho em folha no final

O meu, coitadinho, agoniza

Porque você o deixou abandonado no tempo, pegando ferrugem

Aí ele parou de bater no tempo do amor

Tem hora que o real da metonímia é maior do que a rima

Aí fico aqui, brincando de prosear nas escansões do verso sem métrica

Coitado do verso! Tá que nem o coração: não sabe mais bater no ritmo

Talvez a vida seja este desalinho e este descompasso

Mesmo que de vez em quando

A gente cisme de brincar de rimar com algo ou alguém

Brinquei de rimar contigo, mas a métrica não bateu

Aí preciso ir ali no chaveiro pra abrir a minha porta

Porque você enferrujou as minhas chaves e nem me avisou

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