Você quer o que você deseja?

Este é o título de uma obra de Jorge Forbes que não li, mas cujo título mexeu comigo. Fiquei pensando nessa diferença, discutida tangencialmente no meu cartel de psicanálise, entre o “Wurst” (querer) freudiano e o “désir” (desejo) lacaniano. Quando eu decidi que não desejava mais permanecer casada, fiz uma série de demandas a mim mesma, como: “só namoro alguém que tenha um salário”; “só namoro alguém que me deseje sexualmente” e etc. Estas eram coisas que eu queria. Pois bem: namorei um professor. Salário parecido, mas cheio de dívidas. Desejo sexual aceso, mas demandas impossíveis, e um tanto autoritárias, de relacionamento aberto (“se não for assim, eu não quero”. Eu eu que me virasse pra dar conta de absorver coisas que levavam tempo pra mim). Fico aqui pensando que o querer está no campo da demanda, enquanto o desejo é algo de outra ordem. Eu sempre fui dessas pessoas que fazem listas: desde “to-do lists” a listas de profissões ingratas. Nessa vibe da demanda, rolavam listas de coisas que eu queria no próximo namorado. Salário parecido e desejo sexual aceso eram coisas que eu queria. Mas era isso mesmo que eu desejava? Ou: a demanda dirigida ao outro coincidia com o meu desejo? Me parece que não. Nunca sofri tanto num relacionamento amoroso, pois lidava cotidianamente com uma pessoa extremamente confusa, e passei a me sentir uma pessoa insuportável, que ficava a todo o tempo situando o outro e articulando em voz alta reclamações e cobranças (novamente, no campo da demanda), a partir de um lugar de extrema insegurança que nunca havia ocupado em relacionamentos anteriores. E eu não desejava mais ser essa pessoa insuportável, lidando e respondendo a demandas insuportáveis (eu sei que há quem goste de ficar reclamando e etc. Eu logo encho o saco desse lugar). Eu não sei o que da ordem do desejo. Só sei que é uma ordem que não cabe nas minhas listinhas ordenadoras (que dizem de uma outra ordem, a da demanda). Este ano, não fiz uma lista de “coisas que quero” (e isso é um avanço maravilhoso e aliviante). Da mesma maneira, não fiz uma lista do que quero no próximo namorado. Arrisco apenas dizer que desejo cuidado, na polissemia até meio contraditória que o termo possui.

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