Archive for abril, 2015

Respiro

O cheiro dos seus cabelos de bebê vai se desmanchando como os dedos se desmanchavam neles nos cafunés do passado. O sotaque metalizado, o áudio cortado e a figura num vídeo ora desfocado são o que sobrou de você e também as novas metonímias da vida. E de repente me vejo naquele limbo da liberdade e da aposta que escorre pelos dedos deixando manchas. Sujeira? Semente? Inspirar e expirar ar fresco e livre dos seus cheiros nauseia ambiguamente. O ar fresco enche os pulmões com tanta força que desorienta, ao mesmo tempo em que, ao ser expirado, tira a tensão. Talvez a renovação seja o alívio desse desmanchar meio sem rumo. A tentação dos caminhos antigos com a ilusão dos resultados diferentes também vai se desmanchando aos poucos. E vai sobrando um vazio também angustiantemente ambíguo. Mas em que, finalmente, a esperança e a leveza vão tendo espaço pra dançar, mesmo que timidamente. Desentulham-se as expectativas e abre-se espaço pra coisas que nem sei o nome ainda. Porque talvez, como diz a Clarice, aquilo que desejamos ainda não tenha nome. Mas cheiram àquele café com vapor de leite que desce pela garganta como um abraço. Ou àquele banho quentinho com sabonete de oliva que aquece a alma. Porque, como diz o Guimarães, felicidade se encontra nas horinhas de descuido. Não sei nem ao certo se estou caminhando. Mas vou tateando no escuro. Sem senso de visão, mas aprendendo a confiar em outros sentidos e outras perspectivas, que nem enxergo quais são. Mas que me abraçam como aquele cheiro de café com vapor de leite quente.

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