Dor

[Pra ler ouvindo:]

As gotas grossas caem vertiginosamente, turvando a janela e as vistas. “Amor é planta”, diz o ditado. E como faz com o desencontro? “Assim vai encharcar a raiz!” “Mas, se não regar, vai morrer esturricada”. É agua demais, é agua de menos. E, sem jamais saber a medida exata, a gente se encharca e se resigna na desilusão muda, que sorri seus dentes de chumbo. No meio do caminho tinha uma pedra, mas também tinha uma expectativa, um desejo, um aconchego e até uma vontade de mais-querer. Ah, o querer! Esse cachorro sem dono, esse todo sem parte. E dói e atropela e esmaga a tal da resignação. “Aceita que dói menos”. Pois é precisamente aceitar que faz doer, oras. Enquanto a gente nega, empurra e até mesmo grita, ainda estamos em choque. É a aceitação que deixa a guarda baixa e, então, o trauma se revela em todas as suas nuances. Da garganta apertada às pernas bambas. Cabeça que explode, lágrima que escorre, dor que se espalha, erva-daninha. Se houvesse algum modo de evitar a dor, especialmente a que eu causo, te juro, eu faria. Mas a única saída é causar dor. E senti-la também, até o talo, até não ser mais suportável, soco que nocauteia o peito que queima em agonia. Dói ver a aposta escorrendo pelo ralo, a esperança se esvaindo do rosto, a energia se esvaecendo do corpo. E dói tanto, que dá vontade de correr e remendar tudo. Mas tapar a ferida latejante com band-aid só apodrece e necrosa. Então a gente deixa a ferida latir de dor. E tenta se por no colo. Até que passe…

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