Ontem

Dormi embalada pelo cheiro da sua pele na minha. Ontem é possível. Nossa dança é tango e meu corpo, bordel. Sua voz rouca, explosão. Vontade de te acolher na palma da mão e te acarinhar a barba, te ouvir até você se cansar de falar e me enroscar entre as suas pernas, ronronando toda feito gata no cio. Duas garrafas de vinho. Giro a garrafa e pergunto: “verdade ou consequência?”. E no meio de tantas verdades confessas, convexas, conversas, algumas consequências safadas e descontraídas, molhadas, vividas de gotas de chuva, de vinho e de corpo. Ontem é avesso, é reverso, é verso, é poesia. E é prosa. Ontem, mais do que causa, é efeito. E afeto. Vida que segue e que brota, mesmo que seja só ontem. Porque ontem é eternidade retumbante, peça de Piazzolla que termina em seu ápice. Pequena morte. Marte. A consequência da verdade. Ou a verdade da consequência. No fundo mesmo, ontem é vida que se debulha e se apresenta. É tango e é baião de dois, mesmo que a única bailarina seja eu. Mismo que no quieras bailar conmigo. Eu bailo no embalo do olho que encara. No compasso do afago e do abraço, da conversa e do rascunho, do encaixe. E da promessa.

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