Bolhas

Coloco a água pra esquentar numa vasilha de ferro, ligo o fogo e espero a água começar a se agitar em bolhas desgovernadas que se desencontram e explodem, frenéticas e cada vez mais quentes, sinalizando que aquele recipiente pode se tornar pequeno, caso a água ferva mais. O limite do recipiente e o desgoverno explosivo das bolhas pode, então, resultar no transbordamento da água fervente que, teimosa, se recusa a ficar limitada naquele espaço. Os pensamentos vêm e vão desgovernados, bolhas quentes e explosivas, totalmente fora do controle. E eu fico aqui, contemplando. Às vezes, me deixo levar demais pelo calor e pensamentos viram impulsos que eu posteriormente tento controlar ou explicar. No mais das vezes, tenho me divertido bastante com o fluxo e com a observação serena de toda essa intensidade-bolha que supita, transborda. Desgovernada pelo desejo, me vejo numa zona instável, que torna inviável qualquer tentativa forçada de ordenação. Então abraço, feliz e resignada, o caos criativo em que me encontro imersa. E deixo a vida transbordar.

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Um amigo de infância me lembrou hoje de uma história: na pré-escola, a professora perguntava: “Gente, o que a vaquinha traz pra nós?” Aí alguém da turma respondia: “Leite”. “O que a ovelhinha traz pra nós?” “Lã”. Quando ela perguntou: “E o peixe, gente, o que ele traz pra nós?”, eu, sem hesitar, respondi mais que depressa: “Bolha”. Meu amigo disse que, mesmo naquela época, conseguiu pensar algo do tipo: “Pô, que massa essa resposta”. A bolha é um sopro de poesia evanescente na minha memória (e vívida na memória do outro), sintomática de uma mente que, talvez de maneira antes mais espontânea, se recusa a pensar dentro da caixa. Por que a vida tem que ser pragmatismo se ela pode ser bolha? Lúdica, feita de sabão ou de sonho, e assoprada com alegria através de um canudo de mamona feito no quintal. Sopro de lucidez nas nossas respostas automáticas e na felicidade instantânea prometida em pílulas milagrosas. Talvez sejam essas pequenas brechas, rachaduras na parede perfeita do tempo e dos dias, possibilidades de pequenos de milagres de leveza na solidez massacrante da rotina.

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O “viver na bolha” tem me feito pensar um bocado ultimamente. Decidi, há quase 15 anos atrás, que aos 30 seria doutora e passaria num concurso para trabalhar na Universidade. Aos 27, apesar de nunca ter tido fetiche de casar, resolvi abraçar a oportunidade que se desenhou diante de mim e escolhi a dedo o cara perfeito: culto, cavalheiro, que me espera em casa com uma sopinha quente quando chego exausta do trabalho. E então, ao fim dos meus 30, concursada, casada, analisada, bato de frente com a minha realidade-bolha, morninha e normal. E bate de volta em mim, inevitavelmente, um vazio de sentido. Bolha-limite, confortável e opressora ao mesmo tempo. Até que ponto as nossas escolhas são realmente nossas? Vale mais viver no conforto ou se livrar da opressão? Será uma mera e feliz coincidência que os meus sonhos tenham coincidido exatamente com as expectativas de classe média? Duvido. Duvido de qualquer resposta definitiva que possam ter essas questões. Talvez porque as contradições e descontinuidades sejam precisamente as respostas precárias que conseguimos encontrar.

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Bolha pode ser condicionamento, poesia pura ou intensidade transbordante. Quais são as bolhas que movimentam nossas escolhas neste momento? Ou seriam todas elas ao mesmo tempo? Quem quiser arriscar uma resposta, fique à vontade! 🙂

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