Archive for fevereiro, 2015

Consenso & consentimento

Consenso e consentimento são palavras-chave pra mim em termos de relacionamento. “Nossa, só você mesmo pra pensar/agir assim!” é uma frase que ouço recorrentemente, quase que em tom de acusação. Bom, existe um mundo em que pessoas terminam relacionamentos e gritam, se sentem magoadas, não querem mais se ver e tudo mais. E existe outro mundo, em que as pessoas conversam, se colocam no colo (no seu próprio e numas das outras) e chegam consensualmente à decisão de não permanecerem juntas como um casal (o que pode implicar não morar mais na mesma casa ou nem mesmo mais no mesmo país). Isso corresponde ao mundo real? Em poucas ocasiões. Isso pode corresponder ao mundo real? Pode, uai. Mesmo não sendo muito comum. Mesmo não sendo aquilo que se espera de um casal que se separa. Reparem que não estou cagando regra pra ninguém: cada umx lida com a realidade como pode, principalmente em situações que dependem de duas pessoas para se configurarem. E eu só posso dizer que sou uma pessoa de tanta, mas tanta sorte, que foi possível ter um companheiro por quase 5 anos e dizer “adeus” da maneira mais tranquila possível. Sim, eu choro todos os dias há mais de um mês. Não, a decisão que ambos consideramos como a mais acertada não é, nem de longe, fácil nem isenta de luto ou dor. Mas, se minha opinião vale alguma coisa, é bem mais fácil quando você não automatiza essa resposta de odiar o outro. E também quando vocês reconhecem que já deram a volta várias vezes, que tentaram pra caralho, mas não querem esperar chegar até o fundo do poço.  E é bonito de ver o outro planejando uma nova vida, com perspectivas, com alegria. E ver novas perspectivas pra mim mesma, sem aquele peso, aquela pressão toda que um casamento tradicional gera na grande maioria das vezes. É reconfortante perceber que as pessoas voltaram a notar a minha risada (uma das minhas marcas registradas, há um tempo esquecida); ter resgatado o prazer de ler e escrever; ter retomado várias amizades, real e virtualmente, apesar de toda a dor no peito.  Então, se é possível escolher amar o outro de uma nova maneira, mais compassiva e livre, inclusive, eu vou escolher o amor ao ódio. Com bastante tristeza e com alívio, porque é tudo junto e misturado. Mas, sobretudo, com um sentimento de ENORME GRATIDÃO ao meu grande companheiro até o momento e a todas as experiências que compartilhamos. Que ele (e todo mundo) saiba que as portas estão sempre abertas para recebê-lo. Que sou eternamente grata a um relacionamento que começou e terminou saudável, com vários percalços e desafios no meio. Mas sempre no compasso do consenso. E que venha a nova fase, as novas experiências e a nova vida que se anuncia.

Ainda vai ter post-agradecimento. Mas não posso deixar de registrar o meu MUITO OBRIGADA à Quel e à Marina, que vêm ouvindo quase que diariamente, com muita paciência, cada etapa que venho vivenciando. Tem mais gente nesse compasso do amor aí, mas depois tem post pra agradecer detalhadamente a cada umx. Obrigada gente, vocês são pessoas maravilhosas!

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Dor

[Pra ler ouvindo:]

As gotas grossas caem vertiginosamente, turvando a janela e as vistas. “Amor é planta”, diz o ditado. E como faz com o desencontro? “Assim vai encharcar a raiz!” “Mas, se não regar, vai morrer esturricada”. É agua demais, é agua de menos. E, sem jamais saber a medida exata, a gente se encharca e se resigna na desilusão muda, que sorri seus dentes de chumbo. No meio do caminho tinha uma pedra, mas também tinha uma expectativa, um desejo, um aconchego e até uma vontade de mais-querer. Ah, o querer! Esse cachorro sem dono, esse todo sem parte. E dói e atropela e esmaga a tal da resignação. “Aceita que dói menos”. Pois é precisamente aceitar que faz doer, oras. Enquanto a gente nega, empurra e até mesmo grita, ainda estamos em choque. É a aceitação que deixa a guarda baixa e, então, o trauma se revela em todas as suas nuances. Da garganta apertada às pernas bambas. Cabeça que explode, lágrima que escorre, dor que se espalha, erva-daninha. Se houvesse algum modo de evitar a dor, especialmente a que eu causo, te juro, eu faria. Mas a única saída é causar dor. E senti-la também, até o talo, até não ser mais suportável, soco que nocauteia o peito que queima em agonia. Dói ver a aposta escorrendo pelo ralo, a esperança se esvaindo do rosto, a energia se esvaecendo do corpo. E dói tanto, que dá vontade de correr e remendar tudo. Mas tapar a ferida latejante com band-aid só apodrece e necrosa. Então a gente deixa a ferida latir de dor. E tenta se por no colo. Até que passe…

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Ontem

Dormi embalada pelo cheiro da sua pele na minha. Ontem é possível. Nossa dança é tango e meu corpo, bordel. Sua voz rouca, explosão. Vontade de te acolher na palma da mão e te acarinhar a barba, te ouvir até você se cansar de falar e me enroscar entre as suas pernas, ronronando toda feito gata no cio. Duas garrafas de vinho. Giro a garrafa e pergunto: “verdade ou consequência?”. E no meio de tantas verdades confessas, convexas, conversas, algumas consequências safadas e descontraídas, molhadas, vividas de gotas de chuva, de vinho e de corpo. Ontem é avesso, é reverso, é verso, é poesia. E é prosa. Ontem, mais do que causa, é efeito. E afeto. Vida que segue e que brota, mesmo que seja só ontem. Porque ontem é eternidade retumbante, peça de Piazzolla que termina em seu ápice. Pequena morte. Marte. A consequência da verdade. Ou a verdade da consequência. No fundo mesmo, ontem é vida que se debulha e se apresenta. É tango e é baião de dois, mesmo que a única bailarina seja eu. Mismo que no quieras bailar conmigo. Eu bailo no embalo do olho que encara. No compasso do afago e do abraço, da conversa e do rascunho, do encaixe. E da promessa.

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Bolhas

Coloco a água pra esquentar numa vasilha de ferro, ligo o fogo e espero a água começar a se agitar em bolhas desgovernadas que se desencontram e explodem, frenéticas e cada vez mais quentes, sinalizando que aquele recipiente pode se tornar pequeno, caso a água ferva mais. O limite do recipiente e o desgoverno explosivo das bolhas pode, então, resultar no transbordamento da água fervente que, teimosa, se recusa a ficar limitada naquele espaço. Os pensamentos vêm e vão desgovernados, bolhas quentes e explosivas, totalmente fora do controle. E eu fico aqui, contemplando. Às vezes, me deixo levar demais pelo calor e pensamentos viram impulsos que eu posteriormente tento controlar ou explicar. No mais das vezes, tenho me divertido bastante com o fluxo e com a observação serena de toda essa intensidade-bolha que supita, transborda. Desgovernada pelo desejo, me vejo numa zona instável, que torna inviável qualquer tentativa forçada de ordenação. Então abraço, feliz e resignada, o caos criativo em que me encontro imersa. E deixo a vida transbordar.

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Um amigo de infância me lembrou hoje de uma história: na pré-escola, a professora perguntava: “Gente, o que a vaquinha traz pra nós?” Aí alguém da turma respondia: “Leite”. “O que a ovelhinha traz pra nós?” “Lã”. Quando ela perguntou: “E o peixe, gente, o que ele traz pra nós?”, eu, sem hesitar, respondi mais que depressa: “Bolha”. Meu amigo disse que, mesmo naquela época, conseguiu pensar algo do tipo: “Pô, que massa essa resposta”. A bolha é um sopro de poesia evanescente na minha memória (e vívida na memória do outro), sintomática de uma mente que, talvez de maneira antes mais espontânea, se recusa a pensar dentro da caixa. Por que a vida tem que ser pragmatismo se ela pode ser bolha? Lúdica, feita de sabão ou de sonho, e assoprada com alegria através de um canudo de mamona feito no quintal. Sopro de lucidez nas nossas respostas automáticas e na felicidade instantânea prometida em pílulas milagrosas. Talvez sejam essas pequenas brechas, rachaduras na parede perfeita do tempo e dos dias, possibilidades de pequenos de milagres de leveza na solidez massacrante da rotina.

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O “viver na bolha” tem me feito pensar um bocado ultimamente. Decidi, há quase 15 anos atrás, que aos 30 seria doutora e passaria num concurso para trabalhar na Universidade. Aos 27, apesar de nunca ter tido fetiche de casar, resolvi abraçar a oportunidade que se desenhou diante de mim e escolhi a dedo o cara perfeito: culto, cavalheiro, que me espera em casa com uma sopinha quente quando chego exausta do trabalho. E então, ao fim dos meus 30, concursada, casada, analisada, bato de frente com a minha realidade-bolha, morninha e normal. E bate de volta em mim, inevitavelmente, um vazio de sentido. Bolha-limite, confortável e opressora ao mesmo tempo. Até que ponto as nossas escolhas são realmente nossas? Vale mais viver no conforto ou se livrar da opressão? Será uma mera e feliz coincidência que os meus sonhos tenham coincidido exatamente com as expectativas de classe média? Duvido. Duvido de qualquer resposta definitiva que possam ter essas questões. Talvez porque as contradições e descontinuidades sejam precisamente as respostas precárias que conseguimos encontrar.

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Bolha pode ser condicionamento, poesia pura ou intensidade transbordante. Quais são as bolhas que movimentam nossas escolhas neste momento? Ou seriam todas elas ao mesmo tempo? Quem quiser arriscar uma resposta, fique à vontade! 🙂

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