Archive for abril, 2012

Bob Dylan

Bom, o blog anda mal das pernas, quase morto, mas o show de ontem merece um post. Ontem eu vi tocar pela segunda vez talvez o meu único ídolo. E vi o show com a melhor companhia do mundo prum show do Bob. Porque meu amigo é certamente muito mais fã e mais empolgado que eu. E é muito bom ter alguém que também fica com o coração disparado o dia todo e com as mãos escorrendo suor frio nos 10 minutos que antecedem o show. E é uma delícia ficar brincando de “Qual é a música, maestro??”, absorvendo com uma euforia atenta a cada acorde, tentando decifrar cada nova reivanção dylanesca. Acampamos às 17:30 na porta, juntamente com vários adolescentes reunidos em pequenos grupos, comendo Pringles e conversando alto, mas acabamos atalhando por uma fila VIP, por pura sorte, graças ao meu cartão de crédito. Ficamos na grade durante duas horas, papeando e nos divertindo com os (ou melhor às custas dos) adolescentes que cantavam Hanson e Justin Timberlake. Ficamos espantados, a princípio, porque esperávamos ver um público mais velho na fila, mas meu amigo, sagaz como só ele, logo encontrou uma justificativa plausível no nosso mar de especulações de “o que esses meninos estão fazendo aqui?!” (pareço meu avô falando assim): “Deve ser influência da Mallu Magalhães, só pode!” Bingo!

 Mas vamos ao que interessa: o Show!! (A Setlist está aqui, pra quem não tiver saco pra minha narração ziguzagueante). Como sempre, Bob abriu o show com “Leopard-Skin Pill-Box Hat”. Desde a primeira música, já deu pra sacar a pegada blues que o show teria. Vimos um Bob incrivelmente sorridente – “Ele sorriu hoje o que não sorriu nos últimos 40 anos!”, disse um amigo do meu amigo. – Como Tarantino em Kill Bill, ele estava ali claramente para se divertir. Se a fama nunca foi o seu forte, agora ele dá reboladinhas duras e faz rifes de teclado na cara dela –e na cara do público, de tabela. O público pro Bob é quase uma abstração. Cheguei a ter pena (mentira: tive mais desprezo do que pena, mas vá lá) das adolescentes da grade, que chegaram às 6 da manhã na fila e empunhavam cartazes, e gritavam “I love you” desenhando coraçõezinhos no ar e mandando beijinhos. Se as visse, acho que o Bob dos anos 60/70, as mandaria às favas. Mas ele nem as viu. E isso é uma das coisas que mais me intriga no Bob: como é que um filho da puta insensível desses move multidões com seu “Never Ending Tour” de, pelo menos, 20 anos? É o autor que transcende a obra ou é a obra que transcende o autor? Vou deixar a minha “pergunta-Tostines-pedante” de lado e falar do que interessa.

Não vou comentar todas as músicas à exaustão, mas a minha impressão rápida de fã, que bombou em duas no “Qual é a música”: “5. Beyond Here Lies Nothin’” do “Togeather through Life” (2009) e “7.High Water (For Charlie Patton) do, “Love and Theft” (2001). Mas passei com sucesso ao decifrar músicas relativamente recentes, como “6. Spirit on the water” e  “13. Thunder on the montain” (mentira: meu amigo entregou essa de bandeja no primeiro acorde, literalmente). Realizei meu sonho de vê-lo tocar minha música favorita de todos os tempos, 8.“Desolation Row”. E ouvi duas músicas do meu álbum preferido, o “Blood on the tracks”: “10.Simple Twist of Fate” e, de longe, disparado, a melhor performance da noite: “4.Tangled up in blue” –hoje eu voltei pra Sete Lagoas e meus olhos ficaram molhados ao ouvir a original e lembrar da performance de ontem, que me deixou arrepiada dos pés aos cabelinhos da nuca. -A segunda música, “It’s All Over Now, Baby Blue”, veio só pra confirmar a intenção do Bob de se divertir: “Foi mais uma desculpa pra ele ficar tocando lá com os caras do que qualquer outra coisa”. Bingo de novo pro meu amigo.  A estatueta do Oscar em cima da caixa de som já anunciava a terceira música: Things Have Changed.  “5. Beyond Here Lies Nothin'” ganhou uma versão surpreendente e talvez até melhor do que a original.
“15. Like A Rolling Stone”, como sempre, levou o público ao delírio. Em vez do Bob, todos entoamos o refrão, fazendo o Chavrolet Hall tremer. “16. All Along The Watchtower” e “11. Highway 61 Revisited” ganharam versões divertidas e cativantes –galera dando dançadinhas junto com o Bob, e tudo – e  o “bis” “17. Rainy Day Women #12 & 35” agitou muito o público –exceto as adolescentes, que já escoravam na grade abrindo boca do meio pro fim do show –, que proferia animadamente o refrão “Everybody must get stoned”. Alguém levou o refrão a sério demais, e subiu um cheiro de maconha nessa hora. Quando eu costumo dizer que “o show do Bob Dylan não é um show, é uma experiência”, ecoando um clichê que assumo verdadeiro nesse contexto, taí o exemplo que não me deixa mentir.  Não tenho muito o que dizer sobre “9. Honest With Me” e de “12. Man In The Long Black Coat”.

Na saída do show, vi muita gente xingando: que não entendeu nada do que o Bob cantava, que ele não cantou quase hit nenhum, que a voz dele acabou, etc etc etc. Aí eu vou dizer pra essas pessoas o mesmo que eu disse hoje prum amigo no FB (que reclamava disso): “Não dá pra ir pro show do Bob esperando ouvir os hits (tal como são nos discos), ou a voz fanha dos anos 60, ou mesmo esperando qualquer gesto de simpatia com o público. Bob não é Ringo. Não é Paul. Ele não dá a mínima pro público. Ele despreza a fama. E ele se reiventa a cada fase da carreira, a cada show. Só um gênio pode se reinventar dessa maneira”. Reclamar dessas coisas é o mesmo que rolou uma vez, quando as pessoas da minha sala (ah, a Letras…) reclamaram que não entenderam nada de uma versão contemporânea de “Antígona”. Aí eu perguntei: “Mas vocês leram o texto original?” “Não!”  Ou reclamar que o roteiro do filme não obedeceu estritamente ao livro. Só que, no caso do Bob, ele é uma versão contemporânea dele mesmo.

Uma das adolescentes empunhava um cartaz que dizia “Bobby, the new generation salutes you” (acho que tava escrito assim mesmo). Que seja regado a Pringles, Mallu Magalhães e Justin Timberlake, mas que haja novas gerações de fãs. Tomara que eles passem não somente a “saudar”, a “dar um oi com beijinhos” ali no show, mas de fato a ouvir, apreciar e passar o legado pra frente.

Pra quem quer mais de Bob, recomendo muito:

– No Direction Home, dirigido magistralmente pelo Scorcese. Tem muito da história do folk também.

– I’m not there, dirigido por Todd Haynes. Mostra muito dessas várias faces do Bob.

Tem muito mais coisa pra indicar, mas fico nessas iniciais.

(Eu ia postar links para todas as letras e álbuns, mas ia tirar tudo daqui, ó: http://www.bobdylan.com/us/albums)

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