Archive for dezembro, 2011

Da traição

Ele a estava traindo há alguns meses. Eles terminaram. Ela descobriu. E agora ela quer que ele morra. Logo ela, que é uma pessoa tão doce. Logo ela, que apostou tudo num relacionamento longo. Logo ela, que o afofava, que fazia tudo por ele. Ele estava cada vez mais sufocado. A vida mudando vertiginosamente, e ela ali parada, sempre esperando por ele. E ele querendo que ela fosse mais independente. E ele querendo se jogar  na vida. E ele não conseguiu se conter, mas também não teve coragem de romper, porque era um processo. E ele não conseguiu pensar muito além de si mesmo.

Esta historinha é conhecida de muita gente. Aconteceu com pessoas próximas há pouco. Já aconteceu com muita gente ao longo da vida. Há variações dos papéis, e, por vezes há variações no enredo, mas a estrutura de desigualdade costuma não variar muito – ainda que os papéis possam se inverter. Eu já fui traída. Acho que foi a segunda humilhação mais forte que senti na vida. Primeiro, a dor aguda no peito, a sensação de que você está sendo esmagada, de que o mundo, de repente, virou um cantinho pequeno demais pra te caber. Depois, a sensação de “como eu fui uma idiota!”, prontamente seguida de um “Quero que ele morra!”. Eu entendo demais a dor, a humilhação e a raiva.

O que eu não costumo entender muito, é como as pessoas simplificam excessivamente um ato de traição, e já correm pra bater o carimbo de “culpado/a” em quem trai. E culpado/a significa culpado/a pelo fim do relacionamento, culpado/a pelos problemas que o relacionamento vinha trazendo, enfim, culpado/a por tudo. Acho de um reducionismo absurdo, até burro mesmo,  desconsiderar tudo o que alguém foi pra você, desconsiderar tudo o que aquela pessoa tem de bom, tudo o que você aprendeu num relacionamento, e reduzir isso à traição. É de uma puta injustiça. Arrisco a dizer que é muito mais fácil assim: eu sou a vítima, o/a outro/a é o culpado/a e eu vou ali apontar meu dedo pros outros. Uma vez, um tio meu tava pra separar. Aí ele tinha arrumado uma amante. E todo mundo da família dizia que “ele tava separando por causa da outra”. E eu tenho mesmo dificuldade de entender porque “a/o outra/o” é sempre visto como causa, e nunca como consequência.

Porque “veja bem”: na minha cabeça, outra pessoa na relação, em casos de relação monogâmica tradicional, salvo os casos em que as pessoas são poligâmicas, adoram experimentar, mas insistem em relacionamentos monogâmicos (olha, conheço um monte de gente, hein! Mas monogamia/poligamia é assunto pra outro post), costuma ser sintoma de que MUITA coisa já não vai bem. De que a corda, esticada há um tempão, arrebentou. Então, acho que vale o questionamento: o que EU, ser que foi traído/a, posso ter feito para que uma das consequências (geralmente, traição nunca vem sozinha) fosse a traição?

No meu caso, eu insisti por muito tempo em escolher caras bastante “problemáticos”: em geral, pessoas com muita dificuldade de relacionamento ou pessoas com muita dificuldade de progredir no que quer que fosse (os caras nunca se formavam, sempre eram filhos muito protegidos pelos pais, enfim…). Então, a coisa já começava emocionalmente desigual. E vale dizer que a minha autoestima não valia muito, então, eu agradecia pelas migalhas e dava graças a deus por não estar sozinha. Depois, passou a ser financeiramente desigual também. E isso era algo que os caras não engoliam: ter uma mulher que se virava, que ganhava mais que eles. E eu era cruel. E jogava as diferenças na cara. Até que a corda partiu. E ele se vingou. E jogou na minha cara, por meio de atitudes cruéis, que ele tembém tinha poder. E que ele podia ser mais forte. E que eu não sabia de tudo. E doeu muito. Mas aprendi, acho. Espero.

Fiz mais do que apontar dedos: tentei analisar o que EU podia mudar. E tive o meu primeiro relacionamento civilizado, apesar de ainda bem desigual e de ter muitos padrões que se repetiam. Até que a corda partiu. A minha corda do padrão descaradamente desigual. E eu tive coragem de ter alguém na minha vida que tinha o meu nível de estudos, que trabalha, que teve coragem. Uma coragem que eu não teria. De recomeçar. De se recompor muito rápido num ambiente totalmente desconhecido. Enfim: não vou dizer que me livrei totalmente dos padrões. Padrões sempre se repetem. Mas podemos buscar mais igualdade. Podemos parar pra pensar no que precisamos mudar.

E você, o que aprendeu ou pode aprender com uma traição? O que pode fazer, além de apontar dedos e encontrar culpados/as? O que pode mudar? Que cordas pode arrebentar para ter relaciomentos mais livres?

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