FAQ- Por que não a Europa ??

Bom, tô voltando pro Brasil, de mala e cuia, pra ficar. Isso leva à fatídica pergunta: “Mas Maíra, por que você tá voltando??

Resposta: Bom, eu poderia responder várias e várias coisas, mas vou resumir: meu organismo não foi feito pra suportar o inverno europeu. É, eu também adoro o frio. Do Brasil. Com 12 horas de luz. É, é lindo roupa de frio, neve, usar casaco. Nas férias. Quando você está afim. Vem morar aqui e aguentar 8 meses de inverno, neném (não, as estações NÃO são bem definidas). Neve é um pé no saco: bloqueia vias, tira os ônibus de circulação, é chato pra andar e dá preguiça de ir ao supermercado da esquina, porque você precisa vestir 4 calças e 3 blusas e um casacão. Na verdade, meu problema maior foi com a falta de luminosidade. 5h da tarde já era noite e 8h da manhã era como 6h da manhã. Isso pirou o meu organismo: hibernava por horas durante o dia e, não importava o quanto eu dormia, ficava com um cansaço e um sono sem explicação. Não produzi merda nenhuma pra tese. Não fiz amigos multiculturais. Não saí de casa. Não viajei.

A Europa é tão multicultural! Morar aí dá bem mais oportunidade de conhecer gente do mundo todo!

Resposta: Na Suíça, isso é falácia. Desconfio que em boa parte da Europa também. As pessoas aqui, incluindo brasileiros e brasileiras, não têm esse espírito interativo, que nem no Brasil: ninguém quer ser abordado por um estranho, ninguém quer te dizer como está, como está a família, o cachorro, etc. As pessoas te olham torto porque você fala alto, mesmo quando você fala baixo. Elas olham horrorizadas quando você dá uma risada, mesmo que não seja das mais altas. Na aula, eu era o animal exótico sempre em observação. Vale lembrar uma coisa: a Europa está vivendo um contexto pós-crise e nunca a extrema direita esteve tão forte. Aqui na Suíça, 30% do poder está nas mãos da extrema (atenção: EXTREMA) direita. Isso te lembra alguém? (É fácil, começa com H…) Acho que isso demonstra a pouca disposição das pessoas em aceitar estrangeiros, não? Eles precisam culpar alguém pela crise. Então, o inimigo número 1 são os muçulmanos. Mas os latinos ladrões de emprego (empregos que eles não querem fazer nem por decreto, mas zuzo bem) também entram no bolo. Eles tão doidos pra gente cascar fora logo. De novo: uma coisa são suas férias maravilhosas de 15 dias num albergue irado. Outra bem diferente é morar e criar laços de amizade duradouros.

Nossa, mas é táo fácil viajar na Europa! Você pode ir a cada fim de semana para um lugar diferente!

Resposta: Fato. Ainda mais com as passagens vendidas pelas companhias aéreas low cost. Mas não preciso morar na Europa para aproveitar essa facilidade: junto dinheiro e venho NO VERÃO passear e conhecer os países que quiser, sem correria, sem pensar na tese e com dinheiro que não seja destinado à minha mal e porca sobrevivência na quarta cidade mais cara do mundo. Há afirmações que prefiro não comentar, porque quem até quem não me conhece tão bem assim pode imaginar que acho uma estupidez completa: “Nossa, mas a Europa é tão mais civilizada do que o esse esgoto de Brasil!” Mesmo assim, darei uma pequena resposta, dada por um professor fodaço do depto de Línguas Eslavas da Universidade de Lausanne, que vai sempre ao Brasil dar cursos e fala português perfeitamente: “O Brasil de hoje é a França de 1968”. E é isso que o Brasil representa pra mim: um território em debate, cheio de esperança com muita coisa a ser construída. Quero muito, muito mesmo participar de perto deste momento histórico único, com a esquerda no poder, abrindo um caminho cada vez mais fecudo para a construção de um Estado de Bem-Estar. Tenho um orgulho imenso do meu país, do crescimento real e concreto pelo qual estamos passando e quero, mais que tudo, escrever essa história. Deixem suas perguntas na caixa de comentários, que posso fazer um FAQ parte II! 🙂

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18 Comentários »

  1. Gabriel said

    EXCELENTE texto! Me orgulho cada vez mais de ter você como irmã.
    Não vejo a hora de ir praí logo, te sequestrar e nunca mais deixar você ficar por aí a não ser de férias.
    Ah.. e em relação ao extremismo, seria o H de HUGO CHÁVEZ? 😛 hahaha! ou aquele cara que imita o Charles Chaplin, Adolfo? (/Ironic)
    Saudades MIL!!!

    Te amo!

  2. Luciana said

    Tava indo tudo bem, daí que estas últimas frases fizeram um montão de ciscos virem habitar meus olhos. Também quero fazer/escrever história. Lindo FAQ, delicado, claro e sentido.

  3. Marina said

    Maíra, morro de orgulho de te ter como amiga. Nessa realidade de céu branco e silêncio, você foi o meu melhor achado. Volta que o seu lugar é aqui!

    • mairavelar said

      Marina, amore, você me faz muita falta aqui! Você também me salvou!! Daqui a pouquinho estremos juntas de novo! Beijo!

  4. Sabrina said

    Esta é para compartilhar com todos os cegos que vislumbram um país de primeiro mundo, sem pensar nas riquezas que temos aqui. Parabéns Maíra.

    • mairavelar said

      Fico feliz que tenha gostado do texto, Sal! Concordo com você: muita gente reclama de barriga cheia do Brasil… Beijo!

  5. Natty said

    “Vooolta, vem viveeeeer outra veeez ao meu laaadoo..”

    Mas traga CHOCOLATES!
    😛

    • mairavelar said

      Hahahah Levarei alguns, porque a mala tá apertadésima, mas meu amor também vai junto, serve?? 🙂

  6. Ana Paula Diniz said

    Esse mundo é realmente muito pequeno… (sei que não esse não é o lugar mais apropriado para escrever esse comentário, mas aí vai).
    Estava eu, no Facebook, lendo o feed. Vi que uma conhecida do mestrado, compartilhou um texto de uma amiga querida que estaria voltando para o Brasil: Maíra Avelar… hum… acho que conheço esse nome. Fui até a página dela e vi que ela tinha várias amigas em comum além da Marina, todas do Blogueiras Femininas. Gente, que coincidência! Foi quando vi: “de Sete Lagoas”. Olhei a foto bem de pertinho e foi aí que vi que a amiga da Marina e das feministas era a Marina, minha colega de sala no Ensino Médio, amiga querida que trombei algumas vezes por acaso na UFMG e que tive o prazer de reencontrar por aqui. Que bom que está voltando para o Brasil! Espero que esteja tudo bem e que possamos nos encontrar quando voltar. Um grande abraço, da Ana Paula.

    • mairavelar said

      Oi, Ana!! Antes de mais nada, esta caixa de comentários é apropriada pra qualquer coisa, viu? Fiquei tão, tão feliz em te ver no Face!!! Não sabia que Marina era sua amiga… Ela é minha amigona! Você foi uma pessoa que passou e marcou, e sempre fico feliz quando te reencontro. Espero mesmo que possamos nos encontrar em BH quando eu voltar! Beijão!

  7. Lílian said

    Oi! Cheguei até aqui através do “blogueiras feministas”. Amei seu post, a forma como desmistifica um sonho de consumo que povoa a cabeça de milhões de desavisados (eu inclusa, MEA CULPA….) que um dia já disseram todas essas frases para si próprios. “Mas a Europa é tão isso, tão aquilo, ai como eu queria!…” Eu, pessoalmente, dando uma conferida nos sites de pós-graduação europeus. Você nem imagina o sinal amarelo que acendeu bem à minha frente. Bjus, bonitinha!

    P.S. Ainda por cima, dei uma olhada nos comentários e encontrei lá a Lucianaborboletanosolhos. Coisa boa, menina!

    Lílian

  8. Lílian said

    Oi, voltei para ler outras coisas e lembrei de que não comentei um pequeno detalhe – eu JÁ participo de um programa interinstitucional Brasil-Universidade da União Européia cujo nome não citarei no momento desde o fim de 2009. Mas a confusão tá tão grande que comecei a conferir outras alternativas. Muito bom pensar direito. Porque em certos casos ainda tem depois a questão de validar o diploma,, uma CHATICE (Por que a Europa, parte II)!…

    + Bjus.

    • mairavelar said

      Oi, Lilian!

      Então, eu acho que, de fato, um diploma europeu pesa no CV (eu acabei fazendo uma especialização junto com o doutorado-sanduíche). Mas descobri que pesquisa, CV e etc são uma parte muuuito pequena da vida, sabe? Então, a gente tem mesmo que levar em consideração qual é a cultura na qual vamos nos inserir, o quanto temos de grana e coisas bem cotidianas. Eu reconheço que um aspecto que pesou demais na minha “naõ-qualidade de vida” foi o fato de ter tido que detinar metade da minha bolsa ao pagamento do meu aluguel. Talvez, se tivesse ido pra um país onde as coisas são mais baratsa, minha experiência tivesse sido bem melhor. E tem mesmo que ver isso de validação de diplomas. Eu e meu namorado estamos enfrentado uma “via crucis” pra validar o diploma dele aqui… Prometo contar a aventura (ou seria desventura? 🙂 num outro post! Espero que você apareça mais por aqui! Beijo!

  9. Lílian said

    Oi, voltei para ler outras coisas e lembrei de que não comentei um pequeno detalhe – eu JÁ participo de um programa interinstitucional Brasil-Universidade da União Européia (cujo nome não citarei no momento) desde o fim de 2009. Mas a confusão tá tão grande que comecei a conferir outras alternativas. Muito bom pensar direito. Porque em certos casos ainda tem depois a questão de validar o diploma, uma VERDADEIRA CHATICE BUROCRÁTICA (Por que a Europa, parte II)!…

    + Bjus.

  10. Isabela said

    oi! Me deparei com o seu blog outro dia e precisava conversar com vc! estou indo fazer um mestrado em Genebra agora em setembro (em sociologia), e após já ter passado 8 meses na frança (e ter passado por situações semelhantes às suas), gostaria de conversar com vc e perguntar VÁRIAS coisas sobre Genebra! Até pra me preparar pra mais 1 ano e meio (Jesus, só de pensar na falta de luz começo a ter calafrios!!!!!!!)

    enfim, meu email é isabelabelv@gmail.com

    queria muito falar com alguém que já morou na cidade, sabe? tô com medo desse inverno e desse silêncio. ai, acho que você me entende!

    beijos

    isabela

    • mairavelar said

      Oi, Isabela! Pode me escrever (mairavelar@yahoo.com.br)! Posso te passar várias dicas, inclusive sobre como evitar roubadas…
      Beijo e boa sorte! 🙂

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