Sobre o que não gosto aqui

Minha autoconfiança tá ali embolada e jogada fora nalguma lata de lixo. Talvez o maior desafio que eu tenho enfrentado ao viver em outro país não seja a língua, o frio ou a falta de sol: é que aqui eu de repente me deparei com uma Maíra fraca, medrosa, que morre de medo a ponto de ficar paralisada. Acho que eu estava com medo até mesmo de escrever, pois é difícil admitir que eu também posso não ter autoconfiança, não ser proativa, ter medo de não dar conta da minha pesquisa… São coisas que eu nunca senti antes, mas que vieram à tona com muita força aqui. Acho que ninguém gosta de se deparar com seu lado degradado, e aí a gente faz que nem o Dorian Gray e esconde todas as nossas imperfeições no porão, até que um dia encontramos o retrato de nossas próprias imperfeições.E pode ser aterrorizante aquilo que vemos.

Na minha pesquisa, nunca me senti tão perdida. Fico protelando, enrolando e querendo fazer todas as outras coisas que não sejam a pesquisa. Sinto-me perdida em meio de dois campos diferentes de interlocução e morro de medo de ser massacrada pelos quantitativistas. Tive um conversa bastante produtiva com meu orientador brasileiro e sua esposa, que me disseram que meu campo de interlocução tem que ser a área qualitativa, que é de onde eu venho e o que me interessa… Preciso bancar a minha escolha e enfrentar as críticas, logo eu, que me autocritico sempre e não suporto a ideia de falhar no campo acadêmico. Mas é o ônus de escolher fazer uma coisa nova e não repetir que nem vitrola arranhada o que várias pessoas já disseram por aí. Protagonizar mudanças, a minha ambição inicial, implica em riscos. Sinto falta da Maíra destemida e ousada, que simplesmente toca o foda-se e segue em frente com suas ideias absurdas e seus projetos ambiciosos.

Pra piorar a situação, estou numa cidade da qual não gosto. Levou um tempo para eu assumir pra mim mesma que não gosto de Genebra. Acho que é o lugar mais triste que eu já vi: o silêncio é opressor, as pessoas não sorriem nunca e as ruas são sempre vazias, especialmente depois das 6 da tarde. Reconheço que, se eu fosse mais elitizada, poderia gostar de dar um rolé pelas lojas da Louis Vuiton, pelas várias lojas de joias ou relógios, mas uma das coisas de que mais sinto falta no Brasil, é do seu João da farmácia que me pede pra trocar uma nota de 20 por duas de 10; é da D. Maria do EPA, que me diz que farofa Yoki é mais prática, é de diversidade…

Uma coisa que me choca aqui na Europa, até então, é a falta de diversidade no que diz respeito a pessoas: diferentemente do que eu pensava, aqui as pessoas são praticamente todas iguais, inclusive no modo de agir e em todos aqueles protocolos que eles adoram seguir. Não tem povo aqui, sabe? (Especialmente na Suíça, né) É tudo insuportavelmente igual. Esse mundo bege, pra mim, não tá com nada. Odeio o frio externo e o frio das pessoas. Sinto falta de conversar no ônibus com alguém que nunca vi, de buteco, de cinema barato, de feira lotada de gente e até de ônibus cheio. Sinto falta de 12 horas de luz, de salão de beleza uma vez por mês, de poder rir alto e ninguém se assustar, de comida com gosto de alguma coisa…

Quero voltar pro meu sol, pro meu povo, pro meu buteco, pro meu bairro… O fato de ter sido criada no interior também conta muito nessa vontade de “ter minha vida de volta”. Posso passar o resto da vida num grande centro, mas a cultura de querer conhecer e conversar com as pessoas; de prezar pela proximadade, sempre estará internalizada em mim. Não quero viver num lugar rico e sem graça nenhuma. Prefiro o caos colorido, como aquelas lunetas mágicas que tínhamos quando crianças, em que você olha num buraquinho, gira, e a cada hora vê figuras diferentes sendo formadas com pedrinhas coloridas.

Espero que 2011 seja mais produtivo do que 2010 aqui na gringolândia…

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6 Comentários »

  1. Jana said

    Vamos marcar uma conversa no boteco? Você fala quando vai estar no msn, nos encontramos, cada uma em seu país, com uma garrafa de cerveja… Que tal?

  2. Gabriel said

    Consigo perceber o quão angustiante está sendo essa experiência analisando por esse lado.
    Se cobrar por estar frágil, É auto-criticar, mas de uma forma destrutiva e pejorativa e até estúpida. Com certeza o glamour de estar em outro país, a empolgação de conhecer uma cultura mais a fundo, infelizmente acaba quando percebemos que somos apenas um estranho no ninho.
    É como se fôssemos baiacús a observr um cardume de tilápias, achando tudo diferente mas com uma beleza poética… todo o movimento, características e convívio intraespécie é algo que fascina por ser desconhecido. Mas quando percebemos que começamos a fazer parte dessa atmosfera, mas sendo um completo estranho, nos sentimos ilhados e solitários. Ainda mais quando percebemos que todo o ambiente triste e frio é como o rio do baiacú e tilápia, a gente não sabe que existe até perceber que fazemos parte dele, e no seu caso, por conhecer outra cultura e ter essa vivência social distinta da atual realidade aí vivida, é que tomamos conhecimento que tudo isso que envolve a pele sem consentimento TAMBÉM nos envolve. Confúcio já expôs que, uma pequena onda do mar se acha desprezível, frágil e em uma pior situação, perdida na imensidão do mar e fraca perto das ondas grandes. Mas vale ressaltar que uma onda é apenas uma forma temporária.. quando perceber que sua essência é água, não ficará fragilizada. Sua realidade distante dessa vivida atualmente na gringolândia é apenas uma forma temporária e estranha, mas que na sua essência sempre haverá aquela Maíra que tanto você cobra, SEM NECESSIDADE. O aperfeiçoamento pessoal não está na cobrança excessiva.. nada mais é que vestir-se, comer… se refere a todas atividades diárias que devem ser executadas com cuidado e honestidade.. Assim, cada pequena tarefa refletirá a verdade. Abra sua janela em um dia de neve aí… e tente perceber que cada floco de neve cai em seu lugar certo, mas o certo é que não há lugar ao certo..tudo sob o céu tem o seu próprio lugar, e quando chegar lá, não há motivos para se perguntar o motivo… Tudo é como é. E as vezes você não tocou o solo e uma leve brisa de calmaria possa colocá-la de volta em sua terra, origens e onde e como objetivou assim que despencaste do céu.
    Espero que as coisas melhorem… principalmente as emocionais.
    Fique bem! Me dê notícias! Nem que seja por email…
    Te amo!

    Um grande beijo,

    Gabriel

  3. Natália Avelar said

    Ira…

    Aqui no “interior” é comum dizer que “Depois da tempestade, sempre vem a bonança”. A gente sabe que isso não é só um ditado popular que seu Zé da padaria fala, isso é verdade.
    Fico triste de sentir sua angústia daqui, mesmo porque a sua ausência deixa um buraquinho no peito brasileiro de cada um que te ama e que ficou aqui esperando você voltar.
    O conselho que tenho pra te dar é o mais piegas possível, mas vou falar mesmo assim: tenta aproveitar ao máximo as coisas boas sabe… Tem o frio, tem o silêncio, tem a solidão e a adapatação a um mundo novo. Mas também tem um inesperado e novo amor, tem uma oportunidade sensacional de crescimento, tem um título fodástico no seu currículo.
    Estarei sempre aqui nesse cantinho mineiro e quente, pra quando você precisar. Manda um e-mail, chama pra conversarmos no Skype, twitta… só não fica aí tão sozinha tá bom?

    Saudadona, beijo!

  4. Luciana Marques said

    Querida Maíra,

    Muitíssimo obrigada por tudo… Eu realmente precisava desse choque de realidade.

    Abraços
    Lu

  5. rodrigo said

    novamente bizarro pra mim também falta conversar no ônibus também… sei lá….

  6. Esdras said

    Maira por acaso achei seu blog,quase chorei ao lee seu texto,eu morei ai quase 20 anos,visitava meu país uma vez por ano,então decidir voltar a morar aqui porque achava tudo entediante Como voce relata .Porem so aguentei oito meses aqui,estou voltando a Europa agora em junho porque se fico morando aqui vou entrar em depre não acostumo com as pessoas me olhando,ai era feliz de estar no anonimato,aqui se vive na mira de todos.

    Abraços

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