Archive for janeiro, 2011

Sobre o que não gosto aqui

Minha autoconfiança tá ali embolada e jogada fora nalguma lata de lixo. Talvez o maior desafio que eu tenho enfrentado ao viver em outro país não seja a língua, o frio ou a falta de sol: é que aqui eu de repente me deparei com uma Maíra fraca, medrosa, que morre de medo a ponto de ficar paralisada. Acho que eu estava com medo até mesmo de escrever, pois é difícil admitir que eu também posso não ter autoconfiança, não ser proativa, ter medo de não dar conta da minha pesquisa… São coisas que eu nunca senti antes, mas que vieram à tona com muita força aqui. Acho que ninguém gosta de se deparar com seu lado degradado, e aí a gente faz que nem o Dorian Gray e esconde todas as nossas imperfeições no porão, até que um dia encontramos o retrato de nossas próprias imperfeições.E pode ser aterrorizante aquilo que vemos.

Na minha pesquisa, nunca me senti tão perdida. Fico protelando, enrolando e querendo fazer todas as outras coisas que não sejam a pesquisa. Sinto-me perdida em meio de dois campos diferentes de interlocução e morro de medo de ser massacrada pelos quantitativistas. Tive um conversa bastante produtiva com meu orientador brasileiro e sua esposa, que me disseram que meu campo de interlocução tem que ser a área qualitativa, que é de onde eu venho e o que me interessa… Preciso bancar a minha escolha e enfrentar as críticas, logo eu, que me autocritico sempre e não suporto a ideia de falhar no campo acadêmico. Mas é o ônus de escolher fazer uma coisa nova e não repetir que nem vitrola arranhada o que várias pessoas já disseram por aí. Protagonizar mudanças, a minha ambição inicial, implica em riscos. Sinto falta da Maíra destemida e ousada, que simplesmente toca o foda-se e segue em frente com suas ideias absurdas e seus projetos ambiciosos.

Pra piorar a situação, estou numa cidade da qual não gosto. Levou um tempo para eu assumir pra mim mesma que não gosto de Genebra. Acho que é o lugar mais triste que eu já vi: o silêncio é opressor, as pessoas não sorriem nunca e as ruas são sempre vazias, especialmente depois das 6 da tarde. Reconheço que, se eu fosse mais elitizada, poderia gostar de dar um rolé pelas lojas da Louis Vuiton, pelas várias lojas de joias ou relógios, mas uma das coisas de que mais sinto falta no Brasil, é do seu João da farmácia que me pede pra trocar uma nota de 20 por duas de 10; é da D. Maria do EPA, que me diz que farofa Yoki é mais prática, é de diversidade…

Uma coisa que me choca aqui na Europa, até então, é a falta de diversidade no que diz respeito a pessoas: diferentemente do que eu pensava, aqui as pessoas são praticamente todas iguais, inclusive no modo de agir e em todos aqueles protocolos que eles adoram seguir. Não tem povo aqui, sabe? (Especialmente na Suíça, né) É tudo insuportavelmente igual. Esse mundo bege, pra mim, não tá com nada. Odeio o frio externo e o frio das pessoas. Sinto falta de conversar no ônibus com alguém que nunca vi, de buteco, de cinema barato, de feira lotada de gente e até de ônibus cheio. Sinto falta de 12 horas de luz, de salão de beleza uma vez por mês, de poder rir alto e ninguém se assustar, de comida com gosto de alguma coisa…

Quero voltar pro meu sol, pro meu povo, pro meu buteco, pro meu bairro… O fato de ter sido criada no interior também conta muito nessa vontade de “ter minha vida de volta”. Posso passar o resto da vida num grande centro, mas a cultura de querer conhecer e conversar com as pessoas; de prezar pela proximadade, sempre estará internalizada em mim. Não quero viver num lugar rico e sem graça nenhuma. Prefiro o caos colorido, como aquelas lunetas mágicas que tínhamos quando crianças, em que você olha num buraquinho, gira, e a cada hora vê figuras diferentes sendo formadas com pedrinhas coloridas.

Espero que 2011 seja mais produtivo do que 2010 aqui na gringolândia…

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