Só dá Lula!

(O post ficou gigante, mas vale a pena ler…)

Terça-feira, a dona da casa onde moro veio me dizer que viu três noticiários televisivos e dois jornais impressos falarem sobre as políticas desenvolvidas no governo Lula. Ela comprou o “Le Monde” e pude ler a reportagem (de uma página inteira) na íntegra.  Assim que ela me der o jornal, escanearei a reportagem e farei um update no post , pois, para acessar a reportagem online, é necessário pagar.

Bom, vamos aos pontos altos da reportagem: no primeiro parágrafo, a frase “Dilma Roussef, que o [ao Lula] sucederá em janeiro de 2011…” chama bastante a atenção, pois o jornal já dá a vitória de Dilma como certa, o que me parece bastante realista e um tanto quanto distante do que afirma a imprensa brasileira, que anda fazendo ataques histéricos contra Dilma para forçar um segundo turno…

O segundo parágrafo abre com uma frase de efeito: “Em relação ao plano econômico,  onde não se esperava, ele  é excelente”. O autor fornece inúmeros exemplos de melhora no plano econômico. Citarei resumidamente alguns exemplos. Antes de falar deles, o autor faz uma afirmação que convém destacar:  “Tendo e vista os indicadores, Lula, no conjunto, conseguiu melhores resultados [a réussi mieux] que seu predecessor, FHC”. Bom, isso, nós de esquerda já sabemos. O Serra também sabe, por isso fica nessa chatura de “não vamos olhar pro retovisor”, etc, etc. É que o retrovisor revela o óbvio: 8 anos de governo Lula são incomparavalemente melhores que 8 anos de governo FHC, em termos econômicos e sociais. Basta olhar a tabelinha comparativa fornecida pelo “Le Monde” (e que pretendo colocar aqui assim que escanear a reportagem):

FHC LULA
PIB 2,3 3,4
PIB/HABITANT 0,7 2,7
INFLATION 14,9 6,6

Para mim, o que o autor cita de mais importante é o fato de o Brasil ter se tornado um país de classes médias, pois isso implica outros fatores citados na reportagem: o aumento do salário mínimo (“que passou de 200 reais em 2002 a 510 reais em 2010), o que gera o aumento do poder de compra: “De fato, pela primeira vez em sua história [ó só, não é só o Lula que fala essa frase tããão criticada pelas elites], o Brasil tornou-se um país de classes médias (a classe C de renda), que passa de 30, 9% da população em 1993 a 42,3% da população em 2004 e 51,9% em 2008. Essa mutação social é considerável para os milhões de brasileiros que podem consumir, até mesmo poupar, ou, ainda, entrar na economia formal, graças a um contrato de trabalho. Círculo virtuoso [Não, não é “círculo vicioso”, fiz questão de conferir], a redução da pobreza dinamiza, de maneira ainda melhor [d’autant mieux] que a conjuntura mundial era detentora.

Tudo isso, segundo o autor, está atrelado ao que o autor chama de “políticas de estabilidade macroeconômica”: o PAC e o Bolsa Família. Diferentemente do que faz a imprensa brasileira, comandada pelas elites, o autor ELOGIA os programas e, em momento algum, diz que são “esmolas”, “que servem pra deixar os pobres acomodados”. Nada disso:  “Desde  educar seus filhos a garantir a sua assistência médica, as famílias mais pobres recebem entre 20 e 182 reais por mês” . Parece que um jornal francês entende mais o objetivo do Bolsa Família do que os jornais brasileiros… Triste isso…  Após apresentar dados numéricos significativos, o autor prossegue: “O Programa Bolsa Família produz resultados admiráveis. O Brasil vê seus níveis de pobreza e de desigualdade diminuírem simultaneamente. A pobreza, que atingia 40% da população entre 1988 e 1993, começou a diminuir com Cardoso (35%). Com Lula, ela cai a 23% em 2008.

O autor também faz afirmações sobre a estabilidade econômica brasileira: “A estabilidade monetária e a aceleração das trocas comerciais permitiram ao Brasil  acumular reservas que representam hoje  treze meses de importação”. Impressionante, não? O autor continua: “Diferentemente do decênio precedente, o Brasil  não precisa mais temer as turbulências financeiras internacionais”.

Mas nem tudo são só elogios: o autor também critica a infeliz política do mensalão e o “pragmatismo do PT” [no início da reportagem,  o autor cita o fato de Lula ter apresentado um discurso mais moderado em 2002]. O autor ressalta que Lula conseguiu estabelecer laços fortes com seu eleitorado e se reelegeu sem dificuldade em 2006. Mas faz um alerta que considero importantíssimo, que diz respeito às concessões sórdidas que a que o PT teve que se submeter:  “Mas após esse escândalo [do mensalão], Lula teve que se submeter a jogos de negociação mais clássicos para governar. Ele se aproximou de caciques que ele havia combatido no passado e o governo se torna cada vez mais [de plus em plus] dependente do PMDB [ATENÇÃO PARA A INCRÍVEL COERÊNCIA DA DESCRIÇÃO DO PARTIDO. E digo isso sem um  pingo de ironia], um partido desprovido de qualquer coerência ideológica, mas central no jogo das alianças. [UAU!!! Por que não lemos um resumo tão lúcido do PMDB num jornal de grande circulação brasileiro????]. Quanto à reforma política, os resultados [bilan] de Lula são, portanto, decepcionantes”.  Bravo de novo: as alianças sórdidas e não realização da reforma política (e também da reforma tribitária) são justamente meu “calcanhar de Aquiles” com o governo Lula.

O autor fala, ainda, de acordos internacionais, do fortalecimento do Mercosul e de outras questões econômicas que não me interessam muito de perto, por isso, vou pular pro fim da reportagem, onde o autor volta a falar de Lula e finaliza falando de Dilma: “Se Lula soube fazer frutificar certos elementos da soberania [puissance] brasileira, seu objetivo/resultado [bilan] não é suficiente para explicar sua incrível popularidade: ele soube cultivar durante seus dois mandatos a imagem de um homem político próximo do povo, que conhece os problemas e necessidades de seus concidadãos. Primeiro presidente do Brasil não vindo da elite econômica ou política, ele foi capaz de se fazer com base numa trajetória política fora dos padrões (…). Mas sua política de conciliação o tornou popular entre todas as categorias da população, notadamente o patronato e as classes abastadas [aiseés]. Justa recompensa, quando se sabe que as empresas brasileiras floresceram e que o número de milionários explodiu entre 2003 e 2010…”

O autor comenta, então, sobre a capacidade oratória de Lula [pasmem: ele não fica falando que Lula “fala errado” ou “comete gafes terríveis”, ó só!]: “A supervalorização dos objetivos [bilan] de Lula (sobretudo fora do Brasil [algo me diz que tem a ver com os nosso veículos de comunicação de massa…]) está muito ligada à sua equação pessoal, à relação empática, quase carnal, que ele estabelece com seus interlocutores (sejam eles os deserdados ou os poderosos do mundo).  [ou, sério que me emocionei nesta parte]. Sua popularidade é também fruto de um enorme trabalho de comunicação política. É por isso que, mesmo diante de fortes escândalos, ou quando multiplica as gafes, nada afeta sua popularidade [notem o seguinte: a popularidade e o carisma são mais importantes que as gafes. Eu, pessoalmente, admiro as “gafes”. Para mim, mais do que gafes, as falas espontâneas  –e “descabidas”, num contexto formal – simbolizam um homem que é verddadeiramente de origem popular]. Lula resiste à erosão política. Ele será tido como o primeiro “presidente Teflon” do Brasil.

Por fim, o autor tece considerações sobre Dilma: “Dilma Rousseff está engajada em continuar as ações de Lula que ela encabeça [pilote à la tetê] desde 2005 [Pois é gente, parece que escolhe a Dilma não foi bem uma falta de opção, se é que vocês me entendem…] Mas se esta sucessão parece tranqüila e natural, ela terá uma herança dura para carregar: gerir as contradições da era Lula e continuar a política de equilíbrios macroeconômicos e sociais”.

A reportagem é finalizada com uma frase que me emocionou: “O slogan ‘Dilma é Lula’, martelada durante a campanha eleitoral, provoca expectativas fortes: as de consolidar a trajetória ascendente do Brasil e de fazer desse país emergente o “país do futuro” profetizado por Stephan Zweig desde 1941”.

Sinceramente? Pra mim, quem não gosta de Dilma, é quem não gosta do Brasil… E que venha a nova era PT!!!

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7 Comentários »

  1. Lola said

    Não sei se TODO MUNDO que não gosta da Dilma não gosta do Brasil, mas que tem um monte de gente que se encaixa nessa categoria, ah, isso tem… É só ver quem é o pessoal que chama o Brasil de esgoto do mundo, de país imprestável, de povinho bunda etc, e ver em quem eles vão votar. Não é no PT! Tomara que uns 2% do pessoal com mais posses que jura que vai se mudar pra Miami se Dilma ganhar vá mesmo! Obrigada por traduzir o artigo do Le Monde.

    • mairavelar said

      Você tem razão, talvez seja melhor inverter: “Todos aqueles que não gostam do Brasil não gostam de Dilma”. Porque é justamente isto: aqueles que acham que “só o que vem de fora que é bom”, que “o Brasil não presta”, etc, são os que criticam Dilma (mas repare: criticar Dilma não significa defender Serra. Porque, pra essas pessoas, “político nenhum presta”. Se “mexer no queijo” deles, piorou mais ainda). Tomara mesmo que se mudem pra Miami Beach. Ou pra Disney, a terra da fantasia burguesa…

  2. Gisela said

    Olá,

    Depois de muito pensar, decidi não dar meu precioso voto nem para a “sucessora de Lula”, nem para José Serra, nem muito menos paraMarina Silva e abstenho-me de comentar a razão para isso. Prefiro resumir meu comentário e não falar sobre o que eu acho de “franceses dando opinião sobre o Brasil tanto aqui quanto “aí”: conheço-os como a palma da minha mão, tanto na França como morando com cidadãos e cidadãs gauleses no Rio. Apenas gostaria de dizer a você: infeliz comparação do autor do artigo com o grande escritor e idealista (até demais) Stefan Zweig. Melhor deixar Zweig fora disso. Tenho absoluta certeza de que ele reprovaria muitas coisas no atual governo.

  3. Gisela said

    Aliás, a opinião de “quem não está com Dilma está contra o Brasil” é sem dúvida alguma retrógrada, totalitarista, ameaçadora e antidemocrática; isso me lembra a “extinta” era Bush e “bom mocismo” do atual presidente dos EUA.

  4. Gisela said

    Aliás, graças a Deus, Zweig não está vivo para viver o que “sobrou”, o “morceau” da “terre d´avenir”. Que “Deus” abençoe o novo presidente do “Brasa”. ;-)))

  5. Felipe said

    Para mim, quem gosta do Lula e da Dilma é quem gosta do jeitinho brasileiro, quem aprova a corrupção, quem quer mamar nas tetas do governo, quem não sabe – e não quer saber – para onde vão os impostos, quem faz vista grossa para o que é etica, discernimento, honestidade. Quem gosta da Dilma gosta do atraso, da ignorância, do discurso truncado, da perseguição à imprensa. Quem gosta do Lula gosta do Chávez, do Ahmadinejad, do Fidel, do Moralez.
    Quem gosta da Dilma e do Lula é quem gosta da desinformação total, gosta de estar alheio a tudo. Exatamente como o Lula. Não fará muita diferença, só mudará o chefe da quadrilha. E o brasileiro, que não sabe votar, que fala e escreve besteiras, merece.

  6. Amanda said

    Muito bom o post (e a reportagem do Le Monde)! Sobre o PMDB, uma amiga também descreveu-o muito bem: “é o partido que nunca lançou candidato à presidência, mas que elegeu todos os presidentes do Brasil” (à exceção do Lula, em 2002).

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