O sonho de morar fora

É engraçado o que acontece quando um grande sonho se aproxima, né? Diferentemente das menininhas da minha idade, desde muito pequenininha, em vez de querer casamento e filhos, sempre tive muita vontade de morar em outro país e falar outras línguas. Lembro que queria conhecer Paris, por conta de histórias que meu avô inventava, do tipo: “Quando estive em Paris (todas começavam assim, haha), atravessando o rio Sena de jacaré…” E por aí ia… A vontade de conhecer a Europa sempre me fascinou. Aos 13, meu pai ganhou um concurso de cozinha e foi representar o Brasil na França (massa, né? O cara é fera…). Levou minha mãe como ajudante (Eles ficavam treinando no restaurante do meu pai na época…). Eu lembro que implorei pra minha mãe pra me deixar ir no lugar dela. Numa casa em que a renda é apertada, não tinha muito essa de viajar pra fora. E como as passagens de avião não tinham preços tão acessíveis quanto agora, viajar para o exterior era algo muuuito distante na minha cabeça. Então, esta era a oportunidade mais palpável que vi de conhecer Paris. Depois de dias de encheção de saco, minha mãe rebateu meu pedido insistente com um argumento justo: “Tenho 41 anos e nunca viajei pra fora do Brasil. Você tem 13 anos, ainda tem muito tempo pra viajar”.

Aos 14, via as minhas colegas de sala planejando a ida para a Disney, Miami aos 15. E eu, no auge do meu comunismo, pensava: “Disney?! ECA! Paisagem mais artificial do mundo! Americanos?! Uns toscos que fodem o mundo! (Quem me conheceu aos 14, 15 consegue imaginar todo o radicalismo!) Mal sabia eu que, no mesmo ano, ganharia uma viagem aos Estados Unidos… Na minha escola de inglês (Já contei que implorei pra minha mãe pra fazer inglês aos 10 anos?), o melhor aluno ganhava uma viagem pros EUA ou Inglaterra. Desde que entrei na escola, ficava em segundo lugar todos os anos, beirando o prêmio. Era meu penúltimo ano lá (era aquela época que os cursos de inglês duravam 6, 7  anos) e disse pra mim mesma: “Tenho que ganhar este ano! Não posso sair daqui sem ganhar!” Quando me avisaram que ganhei, era pra ser segredo. Mas é óbvio que o meu pai “língua grande” me ligou na hora. Eu estava viajando de férias com minha mãe e meu irmão. Até hoje eu lembro da sensação imensa de felicidade que senti. Depois, a preocupação era: “Pra onde que eu vou?” Conheci uma menina que ganhou e foi pra Disney. Eu só lembrava do quarto dela cheio de Mickeys e Patetas de pelúcia, e aquilo já me dava pavor. Descobri que havia a chance de ir pra Inglaterra e rezava todos os dias pra me mandarem pra lá. Mas isso era pros maiores de 16. Acabei indo pra San Diego. Tinha lido aquele livro “Depois daquela viagem” e a Valéria Polizzi relata o tempo em que viveu na cidade. Fiquei curiosa pra conhecer e me pareceu um lugar bacana… Foi, de longe, minha melhor experiência de viagem, pois morei numa casa de família por um mês e fiz um curso de inglês. Tive, então, a oportunidade de conhecer uma outra cultura e um outro modo de vida. E descobri que os americanos são “gente como a gente”, I mean, povo é povo em qualquer lugar do mundo, embora nos EUA sejam bastante paranoicos (parece que a ‘cultura do medo’, narrada brilhantemente por Michael Moore em ‘Tiros em Columbine’ realmente funciona por lá) e não tenham quase nenhum senso de como as coisas funcionam num outro país (os absurdos sobre o Brasil, por exemplo, variam em grau: desde achar que aqui se fala espanhol até achar que há macacos soltos pela rua. E constatei essa falta de noção em relação a outros países também). Mas percebi que os americanos, assim como qualquer povo, são alienados. Eles não ficam sentados em suas cadeiras pensando em como f*der o resto do mundo: este é, pelo visto, um privilégio de alguns de seus governantes, mas vi de perto que não dá pra generalizar, sabe? Vi também que não são só os EUA que são perversos, mas o Brasil que dizia “Amém” a toda e qualquer ação dos EUA (agora em proporções cada vez menores, ainda bem!).

Enfim: agora irei para o Velho Mundo!! Realizarei meu sonho antigo de ir morar por um tempo num país  europeu. Me entendam, por favor: eu não tenho a ilusão de que a Europa é melhor do que o Brasil. Tenho noção de que algumas coisas funcionam melhor sim, por eles viverem num Estado de bem-estar social há muito mais tempo do que a gente (no nosso caso, considero que são apenas 8 anos e que isso ainda ocorre de forma um pouco tímida em vista do que poderia ser). Mas não tenho aquela mentalidade de colonizado de que “o Brasil é uma b*sta”. Acho, inclusive, que com os avanços econômicos atuais, que permitiram que o Brasil seja visto como um país em que se pode investir (lembra de que a pior crise da história foi uma “marolinha” por aqui?) e que promoveu um crise na Europa, se refletem em avanços por aqui em diversas áreas, enquanto a Europa está em decadência, na minha opinião, mesmo antes da crise. Outra coisa: não acho que eu, latino-americana, serei bem tratada  na Suíça, um país rico e tradicionalmente xenófobo. Aqui no Brasil não há muito preconceito contra gringo (ao contrário: se for europeu ou americano, é super bem tratado). Vejo o preconceito daqui como algo mais interno mesmo: você mudar de calçada quando vê um negro, você ser contra leis de legalização do aborto, você ser contra o casamento gay, quando você chama uma mulher de barbeira no trânsito… E isso quando pegamos leve (farei um post sobre “o preconceito nosso de cada dia”). Não vou nem comentar quando esse preconceito atinge as esferas legais de nosso país. Pois bem, voltando à vaca fria: o que me atrai na Europa é, sem dúvida, a tradição de milhares de anos de cultura. Quero muito mergulhar numa cultura diferente da minha (meu próximo passo é a África), ver como é pensar numa escala de valores diferente da que estou acostumada, estudar co professores e alunos de outros países e conhecer, por esses olhos diferentes dos meus, outras maneiras de ver o mundo às quais eu não teria acesso pelos meus próprios olhos. Estou muito, muito animada com a possibilidade de ampliar o “meu quintal”. Aliás, termino o post com trechos do poema ‘Tabacaria’, um dos meus favoritos de Fernando Pessoa:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(…)

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),

(…)

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: