Considerações sobre o primeiro debate

No dia seguinte ao debate, quando vi a parguta do UOL, “O que você achou do primeiro debate?”, a primeira coisa que me veio à cabeça foi: “sem sal”. Nossa, não teve um pingo de pathos! E para a pergunta “Quem você acha que se saiu melhor no debate”, não há dúvida: Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL. Quando o vi, comentei com minha mãe: “Quê que esse cara tá fazendo no debate?!” Quando ele começou a mídia tinha esquecido sua candidatura, etc, minha mãe meio que adivinhou: “É ele que vai dar o tom do debate você vai ver.” E foi mesmo. Se não fosse por Plínio, o debate seria apenas um bom-mocismo disfarçado entre Dilma, Serra e Marina. Mas vamulá fazer um esforço e tentar destacar alguns pontos altos do debate:

– O primeiro bloco foi uma chatice só: não houve nenhum embate e a apresentação das ideias foi muito vaga.

-Aí a coisa começou a esquentar no segundo bloco, quando Dilma trouxe números comparativos do governo FHC e do governo Lula. Serra deu uma apelada feia! Deu pra ver que ele ficou com raiva (óbvio, né?) e soltou a primeira de suas muitas pérolas (será que é mal do PSDB em debates? Quem se lembra da interminável sucessão de clichês de Alckmim em “Alckmin x Lula”?) : disse que Dima parecia “ter um retrovisor, pos só olhava para trás, que ele queria era olhar pra frente, pro futuro, que o negócio era de agora pra frente”. Ah, então quer dizer que, se é de agora (governo Lula) pra frente, ele assume que o governo FHC foi vergonhoso, é isso? Primeiro tiro no pé, de muitos.

-Depois disso, óbvio que as previsões se confirmaram e Serra perguntou a Dilma sobre saúde. Eu e minha mãe ficamos esperando que a réplica dele fosse ser algo sobre os genéricos, o coquetel da AIDS, etc, mas não: fiquei impressionada como o disco do Serra simplesmente arranhou na questão do mutirão da saúde. O cara tem vários argumentos a favor dele no quesito “saúde” (não que eu tenha gostado do Serra como ministro, mas ele podia muito bem usar algumas coisas a favor dele no debate) e escolhe um dos mais fáceis de ser derrubado! O cara falando de varizes e catarata, enquanto Dilma rebate falando de integração do SUS, algo infinitamente mais relevante pra saúde pública. Deu dó, sério. Meu irmão chegou e falou: “Aí, Dodô [minha tia-avó de 92 anos] votaria nele!”

-Daí vem um ataque genial, quando Serra tenta desqualificar Dilma (e o governo Lula), falando da questão das APAE’s. Nessa hora, ele ficou falando da crueldade do Fernando Haddad e que Dilma como ministra do governo, não deveria ter permitido a discriminação das APAE’s. Pelo visto, não era um assunto esperado, pois Dilma não informou muito.   Aí Serra ficou usando disso, obviamente em momentos nada a ver, para fazer uma espécie de chantagem emocional de novela das 8.

Em geral, Serra foi muito covarde: ele se esquivava de todas as perguntas para voltar ao tema do mutirão (e, eventualmente, ao da APAE). Aí Plínio o chamou de “hipocondríaco”. Pra mim não teve nada melhor!!

A Dilma ficou muito nervosa e controlou muito mal seu tempo de fala. O Serra também não controlou tão bem, é verdade, mas, quando teve que aumentar seu ritmo de fala devido ao curto tempo, Dilma se embaralhou muito. Já tinha notado essa questão da velocidade lenta de fala e de hesitações quando analisei uma entrevista de rádio dela. Sei lá, pra mim, parece uma fala fabricada, sabe? Como se ela tivesse sempre que pensar muito no que fala pra manter a coerência de seu ethos. Acho que isso compromete a questão de seu carisma, no fim das contas. E vamo combinar: carisma não é, definitivamente, a tônica destas eleições. Nunca vi tanto candidato sem carisma junto!

Dos três, Marina foi, na minha opinião, quem apresentou melhores propostas e um pinguinho mais de sal. Mas como disse minha mãe: “Nó, essa vozinha dela…” O timbre de voz dela é péssimo, coitada. E infelizmene não é algo que se possa modificar… Achei suas respostas bastante coerentes e achei também que ela articula bem as ideias, mas não voto nela de jeito maneira (ok, eu sei que não vou votar neste ano, mas vamos esquecer por hora o meu vacilo). Especialmente depois que ela agradeceu a deus no fim. Aí eu lembrei que ela é evangélica e eu não voto em evangélicos, ponto. Acho uma chatice que parte deles tentem me doutrinar (se tiver saco, conto uma conversa bizarra de ontem). Mas deixa de ser chato e passa a ser perigoso quando eles tentam aplicar suas doutrinas na política.

No fim das contas, fiquei feliz em ver três candidatos mais de esquerda contra apenas um de direita. E isso ficou muito claro na resposta à primeira pergunta do primeiro bloco. Apesar de vago, as respostas do bloco são muito ilustrativas da posição política verdadeira  de cada candidato. A resposta de Serra, como era de se esperar, girou em torno de segurança (primeiro tópico abordado em sua resposta, para o orgasmo de seus eleitores de direita. Ele falou até em criar o Ministério da Segurança!) e saúde (como seria óbvio de se imaginar, mas falando de mutirão, tsc, tsc, tsc…), Ah, no finzinho, falou da criação do “PROTEC” (que seria um PROUNI das escolas técnicas. Cara, é muito irônico alguém do PSDB falar isso, sério mesmo. Foi mal, mas não pra ver uma promessa dessas sendo cumprida por um tucano). Dilma enfocou educação e saúde, mas de maneira infinitamente menos superficial e, claro, apontando dados do governo Lula (e sempre falando “nós”, pra vincular mesmo a imagem). Marina falou de uma coisa bacanérrima em termos de segurança, que foi a questão de se criar um esquema de integração daqueles que infracionam e ligando tudo a políticas sociais (não  lembro direito mais da proposta e tô com preguiça de colocar a fita pra ver de novo, mas é algo que só alguém com um pé na esquerda pode propor. Até falei pra minha mãe: “Nessa hora, os eleitores do Serra estão tendo uma convulsão” -porque pra direita segurança = repressão, como a fala de Serra deixou bem claro). E Plínio foi quem, de fato, mostrou a cara: mostrou a que veio, apresentou propostas sem o “bom mocismo” de não se posicionar, que criticou (sabiamente) nos candidatos, apontou  um defeito do debate, que foi a panelinha “Dilma x Serra” e “Marina x Plínio” e botou fogo no barco, já que ele não tem chances de ganhar.

Vamos ver se rola um debate de verdade da próxima vez (e não uma espécie de entrevista) e se Serra continua a se aproveitar dos debates pra dar tiros no próprio pé e reverter as chances que tem de eventualmente subir nas pesquisas. Tomara!

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2 Comentários »

  1. Natália Avelar said

    Vi 5 minutos do debate e fiquei p**** porque as respostas dadas não tinham absolutamente nada a ver com as perguntas feitas. Vi um pequeno embate entre Dilma e Serra em que as respostas eram usadas pra acusações mútuas… Deu muita preguiça. Só no dia seguinte fui ver o tal do Plínio (sensacional). Se tivesse ligado a TV na hora em que ele falou, certamente não teria ido dormir p da vida.

    • mairavelar said

      O Plínio é a sua cara, Natty! Daqueles anarquistas (graças a deus) que surgem pra botar fogo no barco! Se não fosse por ele, o debate seria apenas aquela “conversinha de compadres”. Vamos ver se rola mais embate de verdade no próximo (vamulá, galera, preciso analisar vocês no doutorado e não pode ser tão sem graça assim! heheheheh)

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