A anti-Garota Anglo

Na minha época de adolescente, quando perguntavam “Maíra, que Maíra?”, a resposta variava entre: “Aquela esquisita” ou “Aquela nerd” ou uma combinação dos dois. Eu me enquadrava bem no estereótipo da nerd (ou CDF, que era como chamavam os nerds quando eu era mais nova): estudiosa, politicamente correta e sem nenhuma vaidade. Era engraçado porque, apesar de não me enquadrar em nenhum grupo da minha sala (nem no dos nerds), eu sempre fui representante da turma. Mas sempre fui vítima de bullyings, desde que me lembro de minha existência na escola (que começou quando eu tinha 1 ano), aos três, quatro anos.

Pois bem: na minha escola de Ensino Médio, uma dessas escolas da rede particular, tinha todos os anos um concurso de… beleza. Sim, acredite se quiser: não era um concurso de notas ou uma feira de ciências. E a vencedora (é óbvio que, numa escola que tinha uma coisa desses, o concurso era um concurso só pra mulheres) ganhava, entre brindes de lojas, viagem, etc, uma bolsa de estudos de um ano!! (Eu tinha acabado de ganhar uma viagem para os Estados Unidos pelas notas que obtive na minha escola de inglês e o que consegui no colégio foi uma bolsa parcial, pra você ter noção da inversão de valores). Eu sofria agressões praticamente todos os dias na escola. Não digo agressão física, mas de todos os “excessos de brincadeira” possíveis que tinham o intuito de me ofender. Às vezes eu relevava, às vezes eu ria, mas na maioria das vezes ficava com um puta nó na garganta.

Como a criatividade para as ofensas não tinha limites, o pessoal da sala resolveu fazer um complô no dia de escolher a participante do concurso e combinaram que todos votariam em mim. Para espanto geral da organizadora do concurso e da direção da escola, eu, provavelmente a menina mais sem vaidade da minha sala, baixinha, gordinha (acho que nessa época ainda era gordinha) e de óculos fui maldosamente escolhida pra representar Garota Bonita da sala. As pessoas fizeram isso claramente pra ofender a nerd da sala. Mas se surpreenderam quando eu, a “feminista chata” e nada vaidosa aceitei o convite.

Lógico que minha primeira reação à votação foi de rir muito (apesar de ter sacado a maldade geral da coisa) e recusar. Só que no outro dia, cheguei na sala e ela estava lotada de papéis ( e uns cartazes bem engraçados) de “Maíra Garota Anglo” e a notícia rapidamente se espalhou pela escola. A reação das pessoas com um pouquinho de cérebro (incluindo a maioria dos meus professores) foi: “Fiquei sabendo que você foi eleita pro concurso. Que massa ter alguém como você lá! Vou torcer pra você!” Foi aí que vi que, na verdade, eu poderia representar a voz de todas as “alunas de verdade” da escola (que foi a essência do meu “discurso de miss”, que ficava embaixo de uma foto em que, por sorte, saí completamente vesga por conta do meu estrabismo. Pena que não tenho salvo pra colar aqui!) e botar fogo no barco, já que nunca me interessei minimamente em minha vida em me promover pela imagem  física de nenhuma forma. A direção da escola me chamou e me alertou para “o risco que eu estava correndo” de ser vaiada e execrada pela minha turma e pelas pessoas da escola. Eu disse que estava ciente do risco, mas que queria corrê-lo mesmo assim, pois gostaria de representar a  voz daquelas(es) que discordavam de um concurso de beleza na escola. Vi que tinha uma preocupação por parte dos diretores, mas que tinha também um desespero de abafar a polêmica que a minha participação tinha gerado na escola.

No fim das contas, o pessoal da minha sala criou uma rede de solidariedade e torcida por mim. O único prêmio que ganhei nisso tudo foi o de melhor torcida (o pessoal fez camisa, soltou foguete quando entrei no “desfile”, fez musiquinha de torcida, sem contar que havia pelo menos três professores no meio da galera). Tá certo que ganhava um caixa de cerveja (que rendeu a “Festa da Maíra: a (quase) Garota Anglo”. Genial, o título, diz aí!). Mentira, teve um prêmio mais legal: conseguimos acabar com o concurso de beleza!!!! Depois da minha fatídica participação –de de toda a polêmica que fiz questão de criar em torno do concurso e de toda a briga que o segmento de pessoas que se sentia oprimido na escola comprou –o concurso acabou. Quer dizer, teve mais uma edição (em que a galera da sala quis votar em mim de novo, mas dessa vez teve pré-seleção, pra evitar a “desgraça”), mas foi um fracasso de público. Sei que isso não se deve só à minha participação no concurso (essas coisas cansam depois de algumas edições, né?), mas considero que a minha participação no concurso (e toda a polêmica que isso gerou) foi decisiva pro fracasso do evento.

E sabe qual foi o melhor prêmio de todos? A reconciliação entre mim e meus colegas de sala, que passaram a demonstrar um respeito muito bacana por mim. Reconheço que, depois da torcida de solidariedade, eu também fiquei um tiquinho menos radical ao discordar das pessoas. E o mais legal disso tudo é pensar que não foi a minha beleza (ou a falta dela) que pautaram qualquer um dos prêmios: foi a força de enfrentar uma situação como essas, que só o meu feminismo pôde me proporcionar!

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18 Comentários »

  1. Clara said

    Oi Maíra, essa Lola é mesmo danadinha,né? Olha o que ela nos proporciona! Que “intercâmbio” legal,né?! Espero que muitas outras histórias legais apareçam…Adorei seu post, muito bem escrito, diga-se de passagem. Parabéns! Ah, e obrigada pela visita lá na “minha gaveta”! Bj!

    • mairavelar said

      Oi, Clara! Bacana mesmo o intercâmbio! Adorei o seu blog e pretendo visitá-lo sempre! Resolvi dar uma revitalizada no meu e quero publicar ao menos uma vez por semana… Vamos trocando figurinhas, sim? Beijos!

  2. Natália Avelar said

    Fantástico o post!

  3. menestrelinventa said

    Poxa, adorei mesmo seu post!
    Parabens pela coragem de se expor para criticar o que achava errado. É raro se fazer isto, especialmente na época de escola.
    Ganhou uma leitora 😉
    bjs

    • mairavelar said

      Ah, que legal que você gostou!!
      Você tem blog também? Se tiver, me manda o endereço pra eu fazer uma visitinha!
      Bjs!

  4. Laurinha said

    Muito legal! Estou lendo os posts de quem deixou o link lá no blog da Lola. Bom ver mulheres de todas as idades, estilos de vida, tendo o feminismo como fator comum.
    E legal saber que já na adolescência você ajudou a acabar com uma palhaçada dessas. Mulher ganhar bolsa de estudo em um concurso de vaidade (acho que tem mais a ver com isso que com beleza) e não por notas, por inteligência… Imagino a cabeça de quem inventa esses concursos e suas premiações nada a ver…

    Bjus

  5. Jullie said

    Adorei! Parabéns pela força! Conheci pelo blog da Lolla, já foi direto pros feeds RSS!

    Um abraço!

    • mairavelar said

      Oi, Jullie!

      Ah, obrigada pelo feed! Vou dar uma passadinha no seu blog!

      Abraços!

  6. Rita said

    Oi, Maíra.

    Que ótima história essa! Que raio de ideia – um concurso de beleza num colégio… é demais, né? Adorei sua atitude, parabéns. É pra poucos, viu?

    Abraços,
    Rita

    • mairavelar said

      Oi, Rita!

      Pra você ver como os valores vivem se invertendo… Tenho acompanhado o seu blog sempre e gostado muito! (Ainda tenho que descobrir como favoritar aqui no WordPress…)
      Fiquei feliz com sua visita!

      Abraços!

  7. na minha escola (eu estudava no anglo) tambem tinha essa de concurso de beleza. as meninas ficavam de biquini, depois tinha desfile com roupa de gala, era o maior espetaculo. nao sei se tenho alguma coisa CONTRA um concurso de beleza, mas acho que a escola poderia criar uma coisinha mais estimulante no campo da ciencia. enfim, uma opiniao, neh… que bom que no teu caso, tu se saisse bem 😉

  8. ok, eu deveria ter lido o titulo do post hehehehe pois eh: anglo!

  9. juliana said

    Caraca, Maíra! Adorei a história!

    Você escreve bem ,né?

    Agora vou ” fuçar” o restante do blog.

    beijo

  10. Fernanda| said

    Maira, que post maravilhos…Adorei…Vou votar em voce…
    Beijos,

    Fernanda

  11. Nathália said

    Mas que barato! Parece até roteiro de filme adolescente (numa versão inteligente, não to falando de High School Musical, não hahaha), uma coisa alegre. E você levou muito bem a situação!

  12. Excelente post, Maíra!
    Tava lendo e torcendo pra você ganhar o concurso, pena que não. 😦 Quer dizer, ganhou também, porque acabar com ele foi uma bela vitória, parabéns! 🙂

  13. Inês said

    Oi Maíra!

    Li seu texto e me identifiquei logo de cara: na escola na qual eu estudei (pública, aliás) também tinha concurso de beleza. Nunca me inscreveram e eu nunca participei, mas eu era sempre “a chata” que discordava e que falava publicamente o quão ridículo era uma escola patrocinar beleza e não raciocínio ou conhecimento dos alunos.

    Confesso que fiquei contente com o final feliz da sua história. Quem dera todo concurso de miss ter uma participante com cérebro para problematizar a coisa.

    Beijo!

  14. […] 2° etapa: O dia em que me tornei feminista – Lúcia, Memórias A anti-garota Anglo – Maíra, Como Assim?! Feminismo, hein? – Nanci, Lúdica e Ácida Antes que o galo cante […]

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