Raiva

Eu estou com raiva esses dias. Muita raiva, pra falar a verdade. Acho que posso vê-la, ou mesmo falar com ela, pois já é quase material. Na verdade, não sei de onde ela vem, com esse sotaque estrangeiro, esses cabelos cor de fogo e essas sardas na cara. Sei que tem um ar provocador e as botas sujas de poeira. É assim mesmo, primitiva. E tem um alfinetão com o qual faz questão de me espetar, no rumo da cintura. Às vezes, espeta tão fundo, que chega até o estômago.

Duas pessoas de meu convívio não muito imediato morreram essa semana: uma delas, a professora Malu da PUC. 42 anos, marido, filhos e uma carreira acadêmica brilhante. Acordou com uma dor de cabeça na quinta-feira. Na sexta, estava na mesa de cirurgia para tirar um tumor na cabeça. No sábado, entrou em coma. Na terça-feira de carnaval, o veredicto médico: morte cerebral. Malu agora respira e vive graças a máquinas. Disseram-me que era necessário esperar 48h para desligarem as máquinas e ela (e sua família, presumo) poder descansar. As 48h se passaram e Malu apresentou um quadro de melhora: sua pressão subiu um pouco e seu coração começou a bater mais rápido. Não vão mais desligar as máquinas, apesar do quadro irreversível de morte cerebral. Há quem diga que ela não quer morrer e é uma explicação na qual posso até acreditar. Mas fico me perguntando se é justo que alguém continue a viver em circunstâncias tão cruéis. Recebi uma enxurrada de e-mails de consternação e solidariedade por Malu. Em todos eles, as pessoas tentavam dizer que apenas Deus (ou o senhor Jesus Cristo, ou qualquer outra entidade que o valha) pode explicar o que aconteceu e que não conseguimos entender devido à nossa ansiedade e desespero. Péra aí: será que existe explicação pra uma pessoa que acorda com dor de cabeça e morre 5 dias depois?? Eu não entendo por que é que as pessoas têm que achar que, em algum lugar, mesmo que inacessível, tem que haver um explicação (preferencialmente transcendente e vinda de um “Deus misericordioso”) para o imponderável. Mas ainda houve um fato que me chocou (e me irritou) mais ainda: diante da melhora de Malu, as pessoas começaram a concordar com o fato de que, a despeito do discurso médico de que ela estava tendo uma vida vegetativa, ela está aqui conosco e podemos sentí-la. OK, não estou colocando em questão se Malu está aqui ou se já partiu dessa pra melhor, que é uma maneira cool de se nomear a morte. O que acho incrível que as pessoas não questionem, é se realmente vale a pena manter uma pessoa e uma família num estado absurdo de sofrimento, só para continuar a “sentí-la conosco”. Acho incrível essa hipocrisia que gira em torno das questões relacionadas à morte. Será que vale a pena mesmo manter Malu conosco? Qual é o custo emocional disso, para nós e para a família? Se se tratasse de um quadro reversível, concordo plenamente que os aparelhos deveriam ser mantidos ligados e que deveria ser feito todo esforço médico possível para que Malu voltasse a viver realmente (e não a vegetar, como agora). Acontece que Malu está sobrevivendo às custas da nossa hipocrisia e da nossa incapacidade de lidar com o imponderável. E não me venham com chorumelas de colocar um Deus nisso daí. Acho que não há nada mais cruel e covarde do que fazer uma pessoa sobreviver graças ao nosso egoísmo de querer tê-la conosco. E é fácil amaciar as coisas e dizer que isso está acontecendoporque Deus ou Malu querem assim. É, como diz o Lourenço (do glorioso “O cheiro do ralo”): a vida é dura. E a realidade pode ser mais cruel do que podemos suportar. Mas até que ponto vale a pena mascararmos o nosso egoísmo e a nossa covardia em lidar com a morte, dizendo que Deus ou uma pessoa com quem não podemos mais falar querem assim? Tenho a impressão de que, se Deus ou Malu sentissem algo, eles certamente estariam com raiva.

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2 Comentários »

  1. kariny said

    Maíra
    confesso que, por várias vezes, esperei por um milagre. Idiotice? Talvez…mas em momentos de turbulência fica difícil manter as coisas nos devidos lugares. Mas aí também eu me pergunto: em que lugares as coisas deveriam estar? Por que a Malu nao deveria estar aqui conosco? Nao consigo, nem arriscando muito meu precário conhecimento filosófico/religioso responder. Só queria e pronto! Aí me lembro de que há uma ‘força maior’ (Sim..acredito em Deus) que nos faz perceber o tempo todo qual é o nosso lugar…
    Difícil dizer alguma coisa significativa nesta hora…tudo parece idiotice, especulação… mas dizer que sinto e sentirei saudades ainda me parece o mais sensato!

  2. […] na Alemanha. Não sei como foi, mas acabamos falando sobre religião. Ela comentou que havia lido um post meu falando sobre a morte da Malu, ex-orientadora dela. A conversa foi tão bacana, que conversei com a […]

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