Archive for fevereiro, 2009

Raiva

Eu estou com raiva esses dias. Muita raiva, pra falar a verdade. Acho que posso vê-la, ou mesmo falar com ela, pois já é quase material. Na verdade, não sei de onde ela vem, com esse sotaque estrangeiro, esses cabelos cor de fogo e essas sardas na cara. Sei que tem um ar provocador e as botas sujas de poeira. É assim mesmo, primitiva. E tem um alfinetão com o qual faz questão de me espetar, no rumo da cintura. Às vezes, espeta tão fundo, que chega até o estômago.

Duas pessoas de meu convívio não muito imediato morreram essa semana: uma delas, a professora Malu da PUC. 42 anos, marido, filhos e uma carreira acadêmica brilhante. Acordou com uma dor de cabeça na quinta-feira. Na sexta, estava na mesa de cirurgia para tirar um tumor na cabeça. No sábado, entrou em coma. Na terça-feira de carnaval, o veredicto médico: morte cerebral. Malu agora respira e vive graças a máquinas. Disseram-me que era necessário esperar 48h para desligarem as máquinas e ela (e sua família, presumo) poder descansar. As 48h se passaram e Malu apresentou um quadro de melhora: sua pressão subiu um pouco e seu coração começou a bater mais rápido. Não vão mais desligar as máquinas, apesar do quadro irreversível de morte cerebral. Há quem diga que ela não quer morrer e é uma explicação na qual posso até acreditar. Mas fico me perguntando se é justo que alguém continue a viver em circunstâncias tão cruéis. Recebi uma enxurrada de e-mails de consternação e solidariedade por Malu. Em todos eles, as pessoas tentavam dizer que apenas Deus (ou o senhor Jesus Cristo, ou qualquer outra entidade que o valha) pode explicar o que aconteceu e que não conseguimos entender devido à nossa ansiedade e desespero. Péra aí: será que existe explicação pra uma pessoa que acorda com dor de cabeça e morre 5 dias depois?? Eu não entendo por que é que as pessoas têm que achar que, em algum lugar, mesmo que inacessível, tem que haver um explicação (preferencialmente transcendente e vinda de um “Deus misericordioso”) para o imponderável. Mas ainda houve um fato que me chocou (e me irritou) mais ainda: diante da melhora de Malu, as pessoas começaram a concordar com o fato de que, a despeito do discurso médico de que ela estava tendo uma vida vegetativa, ela está aqui conosco e podemos sentí-la. OK, não estou colocando em questão se Malu está aqui ou se já partiu dessa pra melhor, que é uma maneira cool de se nomear a morte. O que acho incrível que as pessoas não questionem, é se realmente vale a pena manter uma pessoa e uma família num estado absurdo de sofrimento, só para continuar a “sentí-la conosco”. Acho incrível essa hipocrisia que gira em torno das questões relacionadas à morte. Será que vale a pena mesmo manter Malu conosco? Qual é o custo emocional disso, para nós e para a família? Se se tratasse de um quadro reversível, concordo plenamente que os aparelhos deveriam ser mantidos ligados e que deveria ser feito todo esforço médico possível para que Malu voltasse a viver realmente (e não a vegetar, como agora). Acontece que Malu está sobrevivendo às custas da nossa hipocrisia e da nossa incapacidade de lidar com o imponderável. E não me venham com chorumelas de colocar um Deus nisso daí. Acho que não há nada mais cruel e covarde do que fazer uma pessoa sobreviver graças ao nosso egoísmo de querer tê-la conosco. E é fácil amaciar as coisas e dizer que isso está acontecendoporque Deus ou Malu querem assim. É, como diz o Lourenço (do glorioso “O cheiro do ralo”): a vida é dura. E a realidade pode ser mais cruel do que podemos suportar. Mas até que ponto vale a pena mascararmos o nosso egoísmo e a nossa covardia em lidar com a morte, dizendo que Deus ou uma pessoa com quem não podemos mais falar querem assim? Tenho a impressão de que, se Deus ou Malu sentissem algo, eles certamente estariam com raiva.

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E então veio o silêncio, e com ele, o desejo. Eles conversavam casualmente; dois conhecidos que não se viam há longo tempo. O pequeno café era aconchegante; a comida era particularmente boa, como também o expresso. Ela tinha um humor que fazia parte dela naturalmente. Quando sorria aquele sorriso farto, balançava os ombros de modo peculiar. E tinha um jeito diferente de andar e de mexer nos cabelos, que ele antes não havia notado. Ele tinha um jeito comedido e simplório que a encantava. E ela nunca havia se dado conta do quão encantador era o jeito como ele sorria pra dentro de uma maneira charmosa e incisiva. Ele a levou para casa, e então começou a chover forte. E ela pensou que queria permanecer ali naquele carro pra sempre. E eles ficaram olhando a chuva pela janela, em silêncio. E ele pensou: “Eu simplesmente quero ficar aqui”. E foi assim que se beijaram, tendo aquele silêncio aconchegante como cúmplice. Permaneceram um longo tempo de mãos dadas e, depois, acariciando rosto um do outro. Então, ele pegou um bloco de notas no porta-luvas do carro, anotou o telefone. Ela fez o mesmo e desceu do carro depois de sussurrarem um “tchau” um para o outro. Olhou pra ele e jogou um beijo através do vidro molhado. Ele permaneceu ali por algum tempo, observando o andar dela até que ela entrasse em casa. Foi então que ele percebeu a mágica e foi invadido por um sentimento de que tudo ali era lindo. E que poderia permanecer lindo sempre.

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Término do horário de verão + 2 dias seguidos de cerveja = insônia brutal

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Explodindo em alegria depois do grande dia

… E explodindo em ressaca depois da comemoração pelo grande dia

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Explodindo em ansiedade para o grande dia…

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Categorizar coisas é uma diversão pra mim (sim, eu tenho pobrema). Descobri que posso criar rótulos pra  categarizar os posts. Até o momento, criei três: “aleatórios”, “bizarros” e “esboços”. Se fosse fazer uma análise quanti-quali do meu blog (sim, eu tenho sérios pobremas), a categoria “aleatórios” estaria disparadamente na frente, apresentando, até o momento, 6  ocorrências. Acontece que os posts classificados como aleatórios, não deixam de ser bizarros; afinal, precisam estabelecer uma conexão temática com o título principal e o endereço do blog. Assim temos, na verdade, um post explicitamente bizarro e outros dois classificados como “aleatórios” que apresentam elementos pertencentes ao bizarro. Portanto,  temos um empate entre a categoria “aleatórios” e a categoria “bizarros” até o momento (Não se assuste se, por acaso, a segunda categoria der uma disparada num momento posterior). Quanto à categoria “esboços”, são essas porcarias, geralmente de tom psicanalítico, que posto de vez em quando (e sinto vergonha e vontade de apagar).  Talvez esse post mereça a catagorização especial de “Duença mental em estágio avançado”… É, tá na hora de parar de escrever artigos acadêmicos e ir tomar uma cerveja. Senão, este blog tornar-se-á insuportável!

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BH-7Lagoas, a saga

Essa foi daquelas bizarrices que me acontecem cotidianamente (e com tal freqüência, que justificam o nome do blog…). Tinha um compromisso na PUC e precisava vir de 7 Lagoas pra BH. Como estava com pressa, tive a brilhante idéia de pegar aqueles “táxis falsificados” que ficam parados na porta da rodoviária (aqueles que os caras ficam gritando LOUCAMENTE o nome da cidade). Pois bem: depois de quase ter uma ataque cardíaco ao entrar num carro (quase literalmente) caindo aos pedaços, eis que, chegando no CEASA, o pneu do carro fura! O cara encosta desesperado numa curva mortífera e ficamos todos nós esperando que ele trocasse o pneu no acostamento mortífero. Até que não demorou muito, mas meu tempo já estava serimante comprometido depois do “incidente”. Não se passaram 5 min e o ESTEPE TAMBÉM FUROU! O cara ficou se justificando, dizendo que os pneus dele não estavam carecas; que furaram devido ao calor (hohoho…). Nessa hora, o meu mau humor, que estava no nível 7 depois o primeiro pneu furado, subiu para muito além de 10. Eu achei que o cara ia ligar para alguém ir nos buscar, mas, para minha surpresa, ele disse: “Tem um ponto de ônibus ali na frente…” Eu não tinha a mais pálida idéia de que ônibus pegar… E, para minha total estupefação, o cara completou: “Vocês podem me dar SÓ 5 reais.” Eu me recusei, mas os outros passageiros retardados deram a grana, aí o cara veio, indignado:  “A passagem é 11,50, e eu tô te cobrando só 5!” Eu só torci a cara e apontei pro pneu furado. Aí o cara, indignado: “Pois é, mas… né?!” [Tradução minha: “Foi um acidente e eu não tive culpa, sua idiota!”] Ao que eu respondi: “Pois é, mas… né?!” [Tradução minha: “Seu tosco, você arriscou a vida de 4 pessoas, deixou-as completamente na mão e ainda quer receber?!”] Acabei dando a grana pra não criar confusão. No fim das contas, dei sinal pra uma van qualquer que, por sorte, parava na Gameleira. Cheguei bastante atrasada (essa foi a famosa economia de tempo porca…), mas consegui assistir a muitos seminários ainda, uma vez que, obviamente, houve problemas tecnológicos e tudo também atrasou. No último seminário, vi que estava por um triz para desabar um temporal e tive a brilhante idéia de ir embora antes da chuva, que estava por um triz, cair. Não deu outra: encharquei completamente. Cheguei em casa louca por um banho e… adivinha? Estava sem luz na rua. Me sequei com uma toalha mesmo e fui comprar algo para comer. Confesso que achei divertido comprar pão à luz de velas. Dormi cerca de umas três horas e, quando acordei, já tinha energia elétrica de novo. Ô, diazinho bizarro!

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