Pesadelo

Há dias vem me perseguindo. Agora talvez eu possa chamar de delírio persecutório: ele não existe mais, mas está lá, como uma reminiscência da memória que insiste em vir à tona, e insiste, e insiste. O pesadelo é o mesmo: evito ir a um determinado lugar porque ele estará lá. Medo de voltar à UFMG? Medo de reviver uma repetição estampada em outro relacionamento? Medo de que ele apareça na fatídica sexta-13 e me mate no sonho, tal como o Freddy Kruger?Não sei, só sei que está lá, repetindo-se com uma absurda insistência. Ultimamente, tenho colocado bilhetinhos coloridos para relembrar o que tenho que fazer ao longo do dia; cada ocasião merece um post-it de cor diferente, uma caneta de cor diferente e, no fim do dia, meu quarto é uma aquarela de reminiscências. De que cor seria um bilhete que o relembrasse, o que relembrasse o fatídico episódio que desencadeou todo o sentimento e todos os pesadelos de perseguição? É estranho porque, no fim das contas, fui eu quem o perseguiu, quando toda aquela sensação de totalidade se defez. Fui eu quem disse: “PÁRA”! Fui eu quem imputei a ele a culpa pelo fracasso e pela perseguição. Acho que foi a primeira vez na minha vida que não pensei “Desculpa por não ter atendido às suas expectativas”. E teria sido libertador, se não tivesse vindo acompanhado de um enorme sentimento de culpa. Acho que estou num processo de tornar-me uma pessoa diferente. Não diferente, porque a análise me ensinou que a gente não muda, mas pode se mover pra outros cantos e ressignificar as experiências. Mas sempre há algo que não é significado e que retorna sempre. Engraçado que quando penso nisso, sempre me vem a metáfora da divisão na cabeça: dividendo, divisor, quociente e resto. Sei lá, talvez isso seja a minha maneira obsessiva de enxergar as coisas. E sei que metáfora da divisão é um prato cheio pra algum lacaniano de platão. Mas eles que se entendam com as suas (super?)interpretações. Eu só sei que a angústia existe e é bem viva. E que não quero que repita até que se elabore, embora talvez seja esta um inescapável quase-lógica inconsciente. Ou talvez um limiar entre o terror e a saudade.

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