Gaiatice

Entrei de gaiato num navio já bem cheio de gente. Só espero não ter entrado pelo cano. O que se anuncia é um banquete. Sem hora pra terminar, só que sem data pra começar. Mas se a mim sobrarem as migalhas e os descuidos, vou mesmo é pra minha jangadinha. Capenga, mas com espaço suficiente pra esticar as pernas, pescar o peixe do almoço e saborear o vento no rosto. Enquanto isso, tento me divertir no compasso da música que toca, e que não sei bem qual é, pois vem do salão onde todos dançam espremidos, enquanto observo do convés, batendo os pés no ritmo que ressoa no corpo. Respiro. Pode ser que parte das pessoas que vejo sejam meus próprios fantasmas e as projeções de mim mesma. De todo modo, ocupam tanto espaço com mais gente, que não sei se há espaço para que eu exista. Então, quero mesmo é soltar o corpo e dançar no convés, respirando o ar fresco (em vez do ar abafado do salão), ignorando esse monte de gente ali espremida, que me espreita não solicitadamente pelo vidro. (E ai, como me incomoda! Por mim, nem saberiam da minha insignificante existência.) Até que a música se acabe. Até que o desejo se apague. Até que você volte pro salão (já que insiste) pra dançar sem música, enquanto todos batem palmas, aclamando a liberdade. Eu nem quero o banquete: quero mesmo é respirar. E dançar junto quando for possível. Só não tente me arrastar pro salão. Nele, sou obrigada a seguir um compasso que nem é o meu. Quero navegar contigo no nosso tempo. E no nosso ritmo. Quando for possível. Mãos dadas e boas comidas. E outras boas comidas. Sem ninguém à espreita. Sem compassos rápidos a serem seguidos rigorosamente, e num tempo curto. Quero mesmo é poder dar gargalhadas pisando no pé. Inábil. Bamba. Inebriada com o frescor do vento abundante. Feliz por ter espaço. Voo. Vem comigo? Não quero de gaiato: quero a gaiatice.

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Seca

É o peito que desafina

Sem métrica nem rima

E dói

Na vitrola o disco arranha:

“Nunca mais serei amada”

Encontros desencontrados

Como ondas no rasinho

Chegam muito perto

Lambem os pés, às vezes

Mas logo se vão

Esturricando na areia

Deliro

Entre possibilidades e promessas

Tenho sede na aridez inóspita

Implacável

Gotas de suor ostensivamente arrancadas

Imploro

O choro se desmancha instantaneamente

Na secura afetiva dos dias

Vertigem

De tanto não ser enxergada

Desapareço

(E ninguém nem nota)

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Pot-pourri

[Pra ler ouvindo:]

A vontade que dá é de roçar a minha língua quente e úmida na sua. Aquele beijo longo, demorado, molhado, suado. De pilotar seu tórax, arranhar de leve seu peito e ouvir sua respiração profunda quando dorme. Mal sabe você que eu tenho esse superpoder, de te ouvir, de te observar e de continuar aquela conversa que não terminamos ontem, ainda que mentalmente. E bate uma querência, uma vontade danada de sentir e de cheirar e de chupar esse seu gosto. Aí tem essa mania. De rolar, rolar, rolar com você, de dançar coladinho sem roupa em slow motion. E eu fico que nem adolescente, fazendo playlists e ouvindo baladinhas em loop infinito. Vida, vida, noves fora, zero: o que resta é esse devir multissensorial, essa vontade de cantar baixinho no seu ouvido as novas músicas que selecionei. Restam também essas reminiscências de você; do encaixe perfeito do seu corpo quando penetra o meu; do seu calor colorido que me dá taquicardia, que nem quando faço samba e amor até mais tarde. Olha só: já temos uma música só nossa, mas que só eu sei. E aí vem a angústia risonha dessa paixãozinha platônica, que nem quando eu tinha 15 anos. E você se torna esse príncipe-donjuan-do-cavalo-branco, tão miseravelmente humano e falho, enquanto eu torno de um lado pro outro da cama, não sei se preguiçosa ou se covarde, doida pra gente se entornar, se transbordar, e se amar como se não houvesse amanhã. Conto as horas pra poder te ver, mas o relógio tá de mal comigo. Bobo, bola, balão, são-joão: a gente se ilude, dizendo “já não há mais coração”. Não só farejo, como quase tateio esse gosto danado de te querer mais. Estranho seria se eu não me apaixonasse por você.

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Esclarecimentos sobre ser anticasamento e antifilhos

Bom, vamos aproveitar que hoje eu estou paciente e postar algumas coisas a título de esclarecimento de um post do Facebook em que disse ser anticasamento e filhos num post de homenagem a uma amiga que pensa como eu:

1. Quado eu digo que sou/era anticasamento, não significa que eu não goste ou queira relações estáveis na minha vida. Gosto de rotina, de saber se o outro gosta do pão branco ou torradinho, de observar as manias e de criar intimidade. Amo intimidade. É ela que nos permite coisas maravilhosas, desde ouvir com atenção o mundo do outro até fazê-lo gozar com mais qualidade. Mas sou questionadora (agora com mais propriedade), de um determinado modelo tradicional de casamento. Em resumo, é aquele lance: nunca me vi vestida de branco, mas choro em casamento de igreja. No de pessoas queridas, copiosamente.

Contraponto: tem gente que, ao contrário de mim, não gosta de se envolver em relacionamentos. Pergunto: qual é o problema? Pra mim, zero. Sou muito mais uma pessoa honesta consigo e com xs demais do que alguém que tenta, desesperadamente, se encaixar num modelo em que claramente a pessoa não cabe.

2. Quando eu digo que nunca quis ter filhos, não siginifica:

a) Que eu odeie crianças. Ao contrário: não posso ver umx tchuquinhx que fico louca: brinco, aperto, converso… Tô cheia de amigas parindo tchuquinhxs e fico aqui delirando. Inclusive, adoro conversar sobre a criação de crianças, sobre criar seres questionadorxs e etc. Acho que, se tivesse ido à frente com a psicanálise, teria um consutório de infantil.

b) Que eu não considere a ideia de ter filhxs. Às vezes eu penso (com frequência, até), daqui a uns 10 anos, em adotar uma criança maiorzinha, daquelas que “ninguém quer mais”, sabe? Porque TER FILHOS É DIFERENTE DE GERAR UM FILHO. Eu me lembro que, desde pequena, eu tinha pavor de me imaginar grávida. Tinha pavor de imaginar minha barriga crescendo com “um neném mexendo dentro”. Ter um ser me parasitando, ficar louca com hormônios, perder inúmeras noites de sono… é só pras fortes, viu? E no mais, não faço questão de espalhar meus genes por aí e nem de trazer mais alguém pra esse mundo cruel e superpopuloso.

c) Na verdade, esta é uma questão muito controversa pra mim. Porque a única coisa que eu sei que não dá pra desistir é filhx. Você pode desistir do emprego, da casa, dos amigos, até mesmo da família. Mas de filhx você não desiste. E, sinceramente, acredito que a relação mãe-filho é cheia de construções e adaptações. Não tem essa de “amor incondicional à primeira vista”. Tem muito amor sim, mas também vontade de sair correndo, de ter seu tempo só pra você, de não se preocupar constantemente com outra criatura, de não ter uma fonte constante de gastos e etc. E isso tudo me apavora por demais. Por enquanto, a vibe “tia” me agrada muito mais.

 Contraponto: tem gente que simplesmente não gosta de criança, não tem paciência. E qual o problema? Zero, né? O problema é quando essas pessoas ligam o “piloto automático da vida” e têm filhx. Aí a tendência é a coisa ser bem desastrosa.

Resumão da ópera: pode ser que eu me case de novo? Pode. Pode ser que eu gere um filho? Pode. Porque a vida é muito mais circunstancial e maluca do que a gente imagina. Mas vejo zero problemas em ser honesta comigo e com xs demais em assumir uma postura de questionar escolhas que fazem parte do “piloto automático da vida”. Sempre serei uma pessoa de opinões convictas e apaixonadas. Mas também sempre essa pessoa aberta ao fluxo da vida. Porque “um lance de dados jamais abolirá o acaso”😉

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Respiro

O cheiro dos seus cabelos de bebê vai se desmanchando como os dedos se desmanchavam neles nos cafunés do passado. O sotaque metalizado, o áudio cortado e a figura num vídeo ora desfocado são o que sobrou de você e também as novas metonímias da vida. E de repente me vejo naquele limbo da liberdade e da aposta que escorre pelos dedos deixando manchas. Sujeira? Semente? Inspirar e expirar ar fresco e livre dos seus cheiros nauseia ambiguamente. O ar fresco enche os pulmões com tanta força que desorienta, ao mesmo tempo em que, ao ser expirado, tira a tensão. Talvez a renovação seja o alívio desse desmanchar meio sem rumo. A tentação dos caminhos antigos com a ilusão dos resultados diferentes também vai se desmanchando aos poucos. E vai sobrando um vazio também angustiantemente ambíguo. Mas em que, finalmente, a esperança e a leveza vão tendo espaço pra dançar, mesmo que timidamente. Desentulham-se as expectativas e abre-se espaço pra coisas que nem sei o nome ainda. Porque talvez, como diz a Clarice, aquilo que desejamos ainda não tenha nome. Mas cheiram àquele café com vapor de leite que desce pela garganta como um abraço. Ou àquele banho quentinho com sabonete de oliva que aquece a alma. Porque, como diz o Guimarães, felicidade se encontra nas horinhas de descuido. Não sei nem ao certo se estou caminhando. Mas vou tateando no escuro. Sem senso de visão, mas aprendendo a confiar em outros sentidos e outras perspectivas, que nem enxergo quais são. Mas que me abraçam como aquele cheiro de café com vapor de leite quente.

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Consenso & consentimento

Consenso e consentimento são palavras-chave pra mim em termos de relacionamento. “Nossa, só você mesmo pra pensar/agir assim!” é uma frase que ouço recorrentemente, quase que em tom de acusação. Bom, existe um mundo em que pessoas terminam relacionamentos e gritam, se sentem magoadas, não querem mais se ver e tudo mais. E existe outro mundo, em que as pessoas conversam, se colocam no colo (no seu próprio e numas das outras) e chegam consensualmente à decisão de não permanecerem juntas como um casal (o que pode implicar não morar mais na mesma casa ou nem mesmo mais no mesmo país). Isso corresponde ao mundo real? Em poucas ocasiões. Isso pode corresponder ao mundo real? Pode, uai. Mesmo não sendo muito comum. Mesmo não sendo aquilo que se espera de um casal que se separa. Reparem que não estou cagando regra pra ninguém: cada umx lida com a realidade como pode, principalmente em situações que dependem de duas pessoas para se configurarem. E eu só posso dizer que sou uma pessoa de tanta, mas tanta sorte, que foi possível ter um companheiro por quase 5 anos e dizer “adeus” da maneira mais tranquila possível. Sim, eu choro todos os dias há mais de um mês. Não, a decisão que ambos consideramos como a mais acertada não é, nem de longe, fácil nem isenta de luto ou dor. Mas, se minha opinião vale alguma coisa, é bem mais fácil quando você não automatiza essa resposta de odiar o outro. E também quando vocês reconhecem que já deram a volta várias vezes, que tentaram pra caralho, mas não querem esperar chegar até o fundo do poço.  E é bonito de ver o outro planejando uma nova vida, com perspectivas, com alegria. E ver novas perspectivas pra mim mesma, sem aquele peso, aquela pressão toda que um casamento tradicional gera na grande maioria das vezes. É reconfortante perceber que as pessoas voltaram a notar a minha risada (uma das minhas marcas registradas, há um tempo esquecida); ter resgatado o prazer de ler e escrever; ter retomado várias amizades, real e virtualmente, apesar de toda a dor no peito.  Então, se é possível escolher amar o outro de uma nova maneira, mais compassiva e livre, inclusive, eu vou escolher o amor ao ódio. Com bastante tristeza e com alívio, porque é tudo junto e misturado. Mas, sobretudo, com um sentimento de ENORME GRATIDÃO ao meu grande companheiro até o momento e a todas as experiências que compartilhamos. Que ele (e todo mundo) saiba que as portas estão sempre abertas para recebê-lo. Que sou eternamente grata a um relacionamento que começou e terminou saudável, com vários percalços e desafios no meio. Mas sempre no compasso do consenso. E que venha a nova fase, as novas experiências e a nova vida que se anuncia.

Ainda vai ter post-agradecimento. Mas não posso deixar de registrar o meu MUITO OBRIGADA à Quel e à Marina, que vêm ouvindo quase que diariamente, com muita paciência, cada etapa que venho vivenciando. Tem mais gente nesse compasso do amor aí, mas depois tem post pra agradecer detalhadamente a cada umx. Obrigada gente, vocês são pessoas maravilhosas!

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Dor

[Pra ler ouvindo:]

As gotas grossas caem vertiginosamente, turvando a janela e as vistas. “Amor é planta”, diz o ditado. E como faz com o desencontro? “Assim vai encharcar a raiz!” “Mas, se não regar, vai morrer esturricada”. É agua demais, é agua de menos. E, sem jamais saber a medida exata, a gente se encharca e se resigna na desilusão muda, que sorri seus dentes de chumbo. No meio do caminho tinha uma pedra, mas também tinha uma expectativa, um desejo, um aconchego e até uma vontade de mais-querer. Ah, o querer! Esse cachorro sem dono, esse todo sem parte. E dói e atropela e esmaga a tal da resignação. “Aceita que dói menos”. Pois é precisamente aceitar que faz doer, oras. Enquanto a gente nega, empurra e até mesmo grita, ainda estamos em choque. É a aceitação que deixa a guarda baixa e, então, o trauma se revela em todas as suas nuances. Da garganta apertada às pernas bambas. Cabeça que explode, lágrima que escorre, dor que se espalha, erva-daninha. Se houvesse algum modo de evitar a dor, especialmente a que eu causo, te juro, eu faria. Mas a única saída é causar dor. E senti-la também, até o talo, até não ser mais suportável, soco que nocauteia o peito que queima em agonia. Dói ver a aposta escorrendo pelo ralo, a esperança se esvaindo do rosto, a energia se esvaecendo do corpo. E dói tanto, que dá vontade de correr e remendar tudo. Mas tapar a ferida latejante com band-aid só apodrece e necrosa. Então a gente deixa a ferida latir de dor. E tenta se por no colo. Até que passe…

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